1 de Abril de 1638 – Samurais cristãos se levantavam contra a perseguição do xogunato

A Revolta de Shimabara levou à extinção oficial do cristianismo no Japão.

Momentos antes de partir para a batalha, um samurai se ajoelha diante de uma cruz e reza, pedindo proteção a Deus. A seguir, ele se junta a uma milícia cujo estandarte é uma bandeira que retrata dois anjos e o cálice sagrado. No alto do tecido branco, lê-se a inscrição “Louvado seja o santíssimo sacramento”. Pode parecer surreal, mas cenas como essas aconteceram em pleno Japão feudal.

A rebelião de Shimabara, iniciada em 1637 e sufocada pelas tropas do governo no ano seguinte, envolveu quase 40 mil japoneses. Muitos deles eram católicos e se opunham à proibição do cristianismo no país. Depois que os rebeldes foram massacrados, cristãos e estrangeiros foram perseguidos sem trégua e expulsos do Japão.

Presença dos portugueses

A rebelião deve seu nome à cidade de Shimabara, localizada na ilha de Kyushu, ao sul do país. A região passou a ser vista pelo governo como uma ameaça à unidade do Japão devido a sua grande população católica.

A religião era uma influência direta dos portugueses, cujo primeiro contato com os japoneses tinha sido justamente em Kyushu, onde aportaram em 1543, na cidade de Tanegashima. E o porto de Nagasaki, na parte oeste da mesma ilha, foi a principal porta de entrada de embarcações vindas de Portugal entre os séculos 16 e 17.

Apelidados de nanban-jin (a tradução literal é “bárbaros do sul”), os portugueses logo tomaram conta das ruas de Nagasaki. Senhores feudais de Kyushu tornaram-se cristãos para ganhar a simpatia do povo e dos comerciantes estrangeiros. Em princípio, isso não afetava o poder central.

Oda Nobunaga, que governou o Japão de 1567 a 1582, chegou até a incentivar o trabalho dos jesuítas para enfraquecer a influência dos monges budistas (com quem disputava poder político).

Mas o ideal de igualdade pregado pelo cristianismo começou a bater de frente com a hierarquia imposta pelo xogum – desde o século 12, esse era o nome da autoridade que detinha o poder militar, executivo e judiciário no Japão. Em 1603, o xogum Ieyasu Tokugawa havia tomado o poder no país, unificando à força as várias partes do território, controladas por diferentes senhores feudais.

Preocupado com a ascensão da religião trazida pelos portugueses, Ieyasu levou seu filho e sucessor, Hidetada, a proibir o cristianismo em 1614. Naquela época, já havia cerca de 300 mil japoneses convertidos.

Início dos massacres

A proibição, entretanto, foi ignorada. Contrariado, Hidetada mandou executar quatro missionários estrangeiros em 1617, no primeiro ato contra cristãos no Japão. Pouco depois, em 1622, começaram os massacres. Naquele ano, 22 cristãos foram queimados e 30, decapitados.

Dois anos depois, a população de Nagasaki já tinha caído de 50 mil para 30 mil habitantes devido às perseguições. Mas os executados tornavam-se mártires e a repressão teve efeito contrário ao pretendido pelas autoridades: a fé dos camponeses só aumentava.

Em Shimabara os conflitos se acentuaram em 1630, quando Shigeharu Matsukura tornou-se o senhor feudal que controlava a cidade. Sua fama era de repressor: ele ordenava aos soldados que ateassem fogo a cristãos vestidos de casacos de palha de arroz. Além disso, implantou um imposto que cobrava dos lavradores 80% do produzido. Esse foi o estopim da rebelião de Shimabara. “Os lavradores passavam fome, havia muita pobreza”, diz Koichi Mori, especialista em cultura japonesa da Universidade de São Paulo. “A população havia sobrevivido a calamidades naturais como seca, má safra e terremotos.”

O movimento não nasceu, portanto, como uma revolta de católicos. “A maioria dos rebeldes não eram cristãos”, afirma Harold Bolitho, professor de História Japonesa na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Mas, apesar de não conhecerem dogmas do cristianismo com profundidade, os camponeses eram atraídos pela ideia de igualdade. “Era uma religião que falava em salvação e o povo, que vivia na miséria, queria acreditar em algo”, diz Sachio Negawa, historiador de cultura japonesa da Universidade de Brasília.

O líder

Em 24 de outubro de 1637, camponeses fizeram uma reunião secreta em que elegeram um líder: Shiro Tokisada Masuda. Filho de um vassalo de Yukinaga Konishi, antigo senhor feudal cristão de Shimabara, ele tinha só 16 anos quando a rebelião estourou.

Já naquela época, lendas a respeito do líder proliferavam. A mais difundida era a de que Shiro Amakusa (nome pelo qual ficou conhecido devido à vila onde nascera) era o filho de Deus enviado para salvar o povo da miséria. “Nada se sabe de concreto sobre a vida dele”, diz Harold Bolitho.

Da escolha do líder até o fim de 1637, vários levantes ocorreram. Camponeses atearam fogo a casas, destruíram templos budistas e agrediram oficiais do governo.

Em 5 de dezembro, Shiro Amakusa e os rebeldes invadiram o castelo abandonado de Hara, a 32 quilômetros de Shimabara.O local foi escolhido porque ficava em um cume e era cercado por fossos de água, o que facilitava o isolamento e a defesa.

Se, no início, o movimento foi marcado pela indignação dos camponeses oprimidos e não por reivindicações religiosas, depois da tomada do castelo de Hara, o cristianismo ganhou muito espaço entre eles. Vários livros de história descrevem que, em momentos de desespero, os camponeses se apoiavam na fé, levantando cruzes e bandeiras brancas.

Para adquirir coragem, rezavam e gritavam os nomes de Jesus Cristo e da Virgem Maria. Em uma escavação arqueológica na fortaleza, em 1992 com o patrocínio da prefeitura de Nagasaki, foram encontradas imagens de bronze de Jesus, Maria e São Francisco Xavier, além de cruzes e rosários.

Dos 37 mil rebeldes que se reuniram em Shimabara, quase metade eram mulheres e crianças. Entre os cerca de 20 mil homens, uma pequena parte eram ronins (como eram chamados os samurais desempregados, que não estavam servindo a nenhum senhor).

Mas não se pode dizer que houvesse um grupo coeso de samurais cristãos lutando em defesa de Shimabara do modo como estamos acostumados a ver em filmes. Apesar de ter surgido no século 12, junto com o xogunato, essa classe de guerreiros só se consolidou no século 18 – respeitando um código de honra e atuando como funcionários públicos.

 A ira do Xogum

Ao saber da ocupação do castelo abandonado, Katataka Terazawa, senhor feudal de Amakusa, enviou 3 mil guerreiros para a região. Apenas 200 voltaram vivos. Os boatos logo chegaram aos ouvidos do xogum Iemitsu Tokugawa, que tinha alcançado o poder em 1623, ao substituir o pai, Hidetada.

Ele ficou impressionado com a resistência dos rebeldes e enviou uma tropa de 26 mil soldados comandados por Shigemasa Itakura. No primeiro ataque, 600 homens morreram e, na segunda tentativa, 5 mil homens de Itakura foram mortos, enquanto menos de 100 rebeldes ficaram feridos.

Em janeiro de 1638, as tropas do xogum tentaram invadir o castelo e foram duramente castigadas, a ponto de o próprio comandante Itakura ter sido morto em combate. Ele foi então substituído pelo conselheiro do xogum, Matsudaira Nobutsuma, mandado para Shimabara com 120 mil homens.

Há quem diga que esse poderoso exército contou até com a participação de Musashi Miyamoto, o samurai mais famoso da história do Japão, invencível por mais de 60 duelos consecutivos. Mas, historicamente, não há provas da participação dele na batalha – o que se sabe apenas é que Musashi se instalou em Kumamoto, localidade próxima a Shimabara, em 1640, cinco anos antes de sua morte.

Os homens enviados pelo Xogum atacando o castelo

A chegada do conselheiro Nobutsuma a Hara foi um momento importante para a mudança de estratégia. Em vez de simplesmente atacar, ele fez um cerco em volta do castelo, para evitar que os rebeldes saíssem do forte em busca de comida. Achava que a fome faria com que se rendessem.

Passados alguns dias, ele jogou uma carta dentro do castelo prometendo perdoar aqueles que se entregassem. Não adiantou. Definhando, os rebeldes entoavam orações e canções que pediam a bênção de Deus para cortar a cabeça de seus inimigos.

A fim de acabar com a resistência, as tropas do xogum tiveram que requisitar o auxílio de estrangeiros. Navios de guerra vindos da Holanda foram então enviados para bombardear o castelo de Hara. Balas de canhão foram encontradas nas escavações da fortaleza.

Mas, em vez de forçar a rendição dos camponeses, a artilharia pesada parece ter dado mais matéria-prima para sua fé: arqueólogos acharam 16 cruzes de metal no castelo, provavelmente feitas a partir da fundição dos projéteis.

Resultado desastroso

Em 10 de março de 1638, senhores feudais de lugares como Amakusa e Shimabara enviaram reforços para auxiliar as tropas oficiais. Nesse ponto do combate, estima-se que já houvesse 200 mil soldados contra 30 mil rebeldes. Um mês depois, um grupo de camponeses tentou um ataque noturno às tropas do governo.

O resultado foi um desastre: 380 rebeldes morreram e alguns sobreviventes capturados revelaram que não havia mais comida ou pólvora dentro do castelo. A informação serviu para que fosse planejado o ataque final, que ocorreu em 11 de abril de 1638. Os cristãos lutaram desesperadamente.

Além de espadas e lanças, utilizaram pedras, pedaços de madeira, utensílios de cozinha ou qualquer coisa que pudesse ser empunhada como arma ou atirada do canhão que eles possuíam.

O castelo foi invadido de madrugada. Cerca de 5 mil rebeldes se sacrificaram para não terem que se render. O restante foi dizimado sem piedade. Shiro Amakusa e outros líderes foram decapitados e suas cabeças foram expostas na ponte de Dejima, em Nagasaki.

 Estima-se que mais de 2,000 soldados morreram. Apesar da vitória, Matsukura, o senhor feudal de Shimabara, se sentiu desonrado e cometeu harakiri (suicídio ritual). Terasawa, senhor de Amakusa, foi punido pelo xogum com a perda de parte de suas terras. Pouco depois, ele enlouqueceu e também se matou.

A feroz resistência dos fiéis nos cinco meses de batalha deixou o xogum Iemitsu extremamente preocupado. Tanto que, depois de Shimabara, os cristãos e estrangeiros passaram a ser os maiores inimigos do governo Tokugawa. Em Nagasaki, padres eram mortos em público e queimados vivos. Aproximadamente 80% dos cristãos da cidade foram executados e os outros foram presos ou escravizados. Prêmios em dinheiro eram oferecidos aos que denunciassem os religiosos clandestinos.

Estrangeiros excluídos

Quanto aos estrangeiros, a política foi restringir cada vez mais sua presença no Japão. Em 1636, cidadãos de diversas nacionalidades já haviam sido banidos, inclusive os portugueses.

O último decreto nesse sentido foi baixado em 1639: apenas holandeses e chineses, que haviam reforçado o ataque a Shimabara, puderam permanecer no país, embora tenham ficado restritos a algumas partes de Nagasaki.

As únicas pessoas que podiam circular por esses guetos eram as gueixas – ao contrário de muitos comerciantes japoneses, que abriram falência com o declínio do intercâmbio com o exterior, elas prosperaram.

Outra proibição chegou em 1641, impedindo a importação de publicações em língua portuguesa – exceto obras sobre medicina, navegação e astronomia. Decisões como essa fizeram parte da política de fechamento e isolamento que perdurou no Japão até o início da chamada Restauração Meiji, em 1868 (que aboliu o sistema do xogunato, tirou o poder das mãos dos Tokugawa e o devolveu à família real).

Antes de ser expulsos, entretanto, os portugueses já haviam deixado um grande legado tecnológico e cultural. Graças a eles, os japoneses tinham conhecido a espingarda, a impressão de livros (como o primeiro dicionário da língua japonesa, editado em 1603) e objetos como relógios, óculos e calças.

Foi comum ouvir no Japão palavras que nasceram do português. É o caso de botan (“botão”), tempura (que vem de “tempero”) e birudo (“vidro”). Mas não se anime em ir colocando arigatô na lista. A história de que a forma de agradecer dos japoneses deriva de “obrigado” é pura lenda.

Saiba mais

Choque Luso no Japão dos Séculos XVI e XVII, José Yamashiro,1989.
A History of Christianity in Japan – Roman Catholic/Greek Orthodox and Protestant Missions, Otis Cary, Charles E, 1976.

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