8 de Julho de 1853 – Morre Takamori Saigo, o último dos guerreiros samurais

Há 140 anos, em rebelião aberta, morria Takamori Saigo, o último dos guerreiros samurais.

No dia 8 de julho de 1853, quatro navios americanos, comandados pelo comodoro Mattew Perry, ancoraram na Baía de Edo sem autorização. A chegada dos quatro navios de cor preta impressionou os japoneses. Até então, eles nunca tinham visto embarcações tão enormes e que, ainda por cima, eram a vapor – pareciam quatro imensos dragões negros soltando fumaça. Mas isso era provavelmente coisa pequena perto ao ruído ensurdecedor de seus canhões Paixhans, disparando tiros de festim para “celebrar a Independência dos EUA” – 4 dias antes, em 4 de julho.

Era um recado não muito sutil de que o Japão era indefeso diante das armas modernas dos EUA. Os dois séculos de isolamento radical, com armas de fogo e navios oceânicos proibidos, haviam feito o país perder o trem do progresso.

Perry levava uma carta do presidente americano, Millard Fillmore, ao xogunato de Tokugawa, exigindo que o Japão abrisse seus portos ao comércio com os Estados Unidos. Confiante no poderoso arsenal que carregava a bordo, o comodoro deu um ultimato aos japoneses: avisou que voltaria no ano seguinte para ouvir a resposta dos nipônicos.

E assim fez. Retornou ao Japão em fevereiro de 1854, dessa vez com uma esquadra de 11 navios. Após alguns dias de tensa negociação, Perry conseguiu o que queria. No dia 31 de março, o Japão assinou um tratado com os Estados Unidos, abrindo dois de seus portos (Shimoda e Hakodate) a navios americanos. Concordou também que os americanos comprassem carvão, água e outras provisões nos portos japoneses. O tratado assinalou o fim de dois séculos de política de isolamento do Japão do resto do mundo.

O episódio teria um impacto muito mais profundo do que a mera abertura dos portos ao comércio. Ele seria o estopim de um movimento que mudaria toda a sociedade japonesa e atingiria em cheio os samurais, a elite militar que governara o Japão nos últimos 700 anos.

A arrogância do comodoro Perry fez com que muitos japoneses se dessem conta da fragilidade militar do país em relação às potências do Ocidente. Era preciso fazer alguma coisa para tirar o país do atraso e restabelecer o orgulho nacional. O próprio Tokugawa Yoshinobu, 15º xogum da dinastia, tomou a iniciativa de modernizar o Exército japonês. Com esse objetivo, buscou a assessoria militar francesa e comprou armamentos americanos.

Para alguns líderes samurais, no entanto, Yoshinobu não era a pessoa certa para conduzir o país à modernização. Em 1866, dois influentes líderes regionais, Takamori Saigo, do feudo de Satsuma, e Takayoshi Kido, do feudo de Choshu, formaram uma aliança para derrubar Yoshinobu e restaurar o poder imperial.

Em novembro de 1867, Yoshinobu renunciou formalmente como xogum, deflagrando a chamada Restauração Meiji. Mesmo abdicando de seu título, Yoshinobu esperava manter o poder. Em janeiro de 1868, teve início a Guerra de Boshin, opondo o exército de Yoshinobu e as forças de Satsuma e Chosu.

O conflito arrastou-se até o início de 1869, com a derrota do exército do antigo xogum. Muitos livros contemporâneos de história descrevem a Restauração Meiji como uma “revolução sem derramamento de sangue” que conduziu o Japão à rápida modernização, mas o fato é que Guerra de Boshin não foi nada pacífica – estima-se que o conflito tenha mobilizado 120 mil homens e causado a morte de 3,5 mil.

O governo Meiji

 Em 1869, o imperador Meiji, então com 17 anos, mudou-se com sua corte de Kyoto para Tóquio (ex-Edo), oficialmente a nova capital do país. O novo governo, controlado por burocratas da oligarquia que havia derrubado o xogunato, iniciou uma série de reformas para modernizar o Japão.

Em 1871, aboliu o sistema de domínios, substituídos por províncias administradas por governadores nomeados pelo imperador, em lugar dos senhores feudais que transmitiam o poder hereditariamente. Os samurais, que haviam sido decisivos para o fim do xogunato de Tokugawa, acabariam sendo mortalmente atingidos no novo regime.

Com a assessoria militar francesa, o governo Meiji criou, em 1873, um exército de conscritos – todo homem que fizesse 21 anos, independentemente de sua origem social, teria de se alistar para servir as Forças Armadas. Em 1876, os samurais foram proibidos de portar espadas – somente militares uniformizados do novo exército poderiam carregar a arma.

Na prática, isso representava a extinção da classe dos samurais. O golpe final veio com a abolição do estipêndio pago aos samurais – que recebiam um salário fixo, proveniente da taxação do arroz produzido pelos camponeses. Com isso, cerca de 2 milhões de samurais, 6% da população japonesa da época, viram-se da noite para o dia obrigados a buscar outra atividade para sustentar-se.

 O último suspiro
O fim dos antigos privilégios, naturalmente, causou muita insatisfação entre os samurais. Um dos mais descontentes com a nova situação era Takamori Saigo, o personagem que inspirou o filme O Último Samurai (2003). Takamori tinha sido um dos cabeças do movimento que pusera fim ao xogunato de Tokugawa. No novo regime, ele chegou a atuar como conselheiro do imperador Meiji.

Aos poucos, porém, começou a se sentir desconfortável nesse cargo. Deixou o governo em 1873, depois de ver rejeitada sua proposta de invadir a Coréia. Takamori via nessa ação militar uma forma de reviver a antiga importância dos samurais.

Takamori voltou para Satsuma, sua terra natal, e fundou uma academia militar. Logo reuniu um grande número de ex-samurais insatisfeitos, foco de uma rebelião contra o governo que explodiria em janeiro de 1877. Takamori chegou a contar com 25 mil guerreiros, mas eles não eram páreos para o Exército imperial de 300 mil soldados treinados por instrutores ocidentais e equipados com artilharia pesada. Os confrontos duraram oito meses.

No dia 24 de setembro de 1877, os rebeldes – já reduzidos a 400 homens – foram encurralados na colina de Shiroyama. A tropa imperial contava com 30 mil soldados e o apoio de cinco navios de guerra. Em pouco tempo, os últimos samurais foram dizimados.

Baleado no estômago, Takamori cometeu seppuku para não ser capturado. Sem chance de escapar com vida, os últimos 40 rebeldes avançaram com suas espadas sobre a tropa imperial. Foram mortos um a um por rajadas de metralhadoras.

Em 1889, o governo Meiji absolveu postumamente Takamori pelos crimes de rebeldia e traição. Nem precisava: os japoneses já o haviam colocado no seu panteão de grandes heróis

 

O legado dos guerreiros

Com as reformas introduzidas pelo governo Meiji no final do século 19, os samurais perderam o direito de portar espadas – consideradas “a alma do guerreiro” – e deixaram de existir como classe social. Parecia não haver mais lugar para eles num país em rápida ocidentalização.

Mas os ideais forjados ao longo de sete séculos no comando do país não desapareceriam tão facilmente. O caminho natural para os samurais era seguir a carreira militar. Muitos se alistaram como voluntários no recém-criado Exército imperial. Se antes eles deviam lealdade ao senhor feudal e ao xogum, agora lutariam em nome do imperador.

Em 1894, os chineses enviaram tropas à Coréia para sufocar uma revolta. Os japoneses, que sonhavam controlar a península coreana, também mandaram soldados para a região. Teve início a Guerra Sino-Japonesa, que terminaria no ano seguinte com a esmagadora vitória dos nipônicos. Dez anos depois, interesses geopolíticos conflitantes na mesma região levaram o Japão à guerra contra um inimigo mais poderoso, a Rússia.

Para a surpresa dos ocidentais, a Rússia foi derrotada em 1905. Em apenas três décadas, o Exército japonês estava pronto para servir aos interesses expansionistas do novo império. O triunfo sobre os chineses e russos pode ser creditado em parte aos ex-samurais. Muitos já ocupavam postos-chave no Exército imperial.

O legado dos samurais não se restringe ao campo militar. Tirando proveito do nível de educação acima da média, muitos ex-guerreiros conseguiram se destacar nas mais diferentes atividades, da literatura à ciência, da política aos negócios. Os grupos Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo, três dos maiores conglomerados empresariais japoneses, foram fundados por famílias de samurais. Os valores que formavam o bushido – como disciplina, autocontrole e perseverança – até hoje fazem parte das características mais associadas aos japoneses.

Os infatigáveis assalariados japoneses – ou salarymen, como são conhecidos –, a força motriz da transformação do país em potência econômica, vêem-se como os samurais dos tempos modernos. Com uma diferença: enquanto seus ancestrais se sacrificavam pela honra do senhor feudal, os assalariados tudo fazem pelo crescimento das empresas onde trabalham.

Saiba mais
Code of the Samurai, Thomas Cleary, Tuttle

Hagakure, Yamamoto Tsunetomo

Comments are closed.