28 de Junho de 1914 – O Assassinato de Francisco Ferdinando

Quando Francisco Ferdinando (Franz Ferdinand) desembarcou em Sarajevo (capital da Bósnia) naquele 25 de junho de 1914 não imaginava o que o aguardava, nem imaginaria o destino que o mundo tomaria após os eventos sombrios dos dias subsequentes. Destinos foram traçados aquele dia, não somente o destino do príncipe, nem do terrorista Sérvio Gavrilo Princip, mas o de milhões de vidas ceifadas em campos de batalha por toda a Europa pelos quatros anos seguintes. 

Franz Ferdinand era filho do arquiduque Karl Ludwig, irmão do então imperador Austro-Húngaro Franz Joseph I, e da princesa Maria Anunciata. Sua trajetória começa em 31 de janeiro de 1889 quando o príncipe herdeiro de fato (Rudolf de Habsburgo) cometeu suicídio tornando, assim, o pai de Franz (Karl) o herdeiro ao trono dos dois reinos. Contudo, o arquiduque renuncia ao direito da sucessão monárquica em favor de seu filho que, a partir daquele momento, começou a ser preparado para se tornar o sucessor do rei e imperador Franz Joseph.

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Franz Ferdinand em seu período de preparação (1895)

Nesta época, a Sérvia tinha pretensões de se livrar do domínio do Império Austro-Húngaro e instalar a Grande Sérvia, tornando, assim, parte da região Balcânica sob uma única bandeira e liderada pelos Sérvios. Todavia, eles precisavam libertar-se do domínio Austríaco. Para o oficial de inteligência do exército sérvio e fundador da sociedade anarquista “Mãos Negras”, Dragutin Dimitrijevic, só havia uma maneira de conseguir os seus objetivos: assassinando membros da realeza.

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 Dragutin Dimitrijevic

Foi sob este pensamento que, no ano de 1903, Dimitrijevic e seus conspiradores planejaram e executaram com sucesso o assassinato do Rei da Sérvia, Alexandre Obrenovic, por considerá-lo um monarca muito próximo aos interesses dos opressores austríacos. Este episódio chocou a sociedade ocidental, visto que, durante a coroação do novo rei da Sérvia  Petar I ( Pedro I ), somente dois países enviaram emissários para o evento: a Rússia czarista e grande apoiadora dos países eslavos e a grande (e inimiga) a Áustria.

Alexandre Obrenovic, rei da servia

 Alexandre Obrenovic, rei da Sérvia

Dragutin e seus seguidores souberam, então, que Franz Ferdinand visitaria a Bósnia no mês de Junho de 1914 para monitorar as manobras de seu exército nas colinas próximas de Sarajevo. O Sérvio então deu autorização para que os membros de sua sociedade colocassem em prática um audacioso plano para matar o herdeiro do trono real. Os conspiradores estavam em 7 pessoas, entre elas Gavrilo Princip, e tinham à sua disposição 4 pistolas e 6 granadas fornecidas pelo Major Vojislav Tankosic. Este, por sua vez, assim como o líder da inteligência sérvia, também fazia parte dos Mão Negra. Todo esse arsenal seria empregado para a realização do assassinato de Franz Ferdinand.

major Vojislav Tankosic

 Major Vojislav Tankosic

 

O Plano e sua execução

O plano dos anarquistas era de atacar o arquiduque no dia 28 de junho, durante o deslocamento que este faria da estação ferroviária para a prefeitura de Sarajevo. O primeiro dos terroristas ficou na ponte Cumurja armado com granadas e o restante ficaram em outros pontos da rota oficial. O terrorista, ao avistar o carro de Franz, lançou suas granadas em direção ao carro real, porém sem êxito. O ataque atingiu somente os membros que vinham no carro posterior ferindo duas pessoas gravemente.

A comitiva foi, então, para a prefeitura onde o prefeito os aguardava para dá-los boas vindas à Sarajevo. Durante seu discurso, o prefeito foi interrompido pelo arquiduque que disse:

“Sr. Prefeito, o que há de bom em seus discursos? Eu venho a Sarajevo em uma visita amigável e tenho bombas atiradas contra mim. Isto é Ultrajante!”

Ao lado da mulher, o arquiduque Ferdinand, do Império Austro-Húngaro, passeia em Sarajevo horas antes do assassinato01 momentos antes do assassinato

 Ao lado da mulher, o arquiduque Ferdinand passeia em Sarajevo horas antes do assassinato

Após o discurso e o encontro com o prefeito, Franz exigiu ver os feridos no hospital local, porém, por recomendação do Governador da Bósnia, Oskar Potiorek, o comboio devia tomar uma rota alternativa para o seu destino evitando assim as multidões do centro da cidade. Entretanto, sem o aviso oficial, o motorista seguiu os planos de rota originais. O motorista, ao errar de endereço, virou na esquina da Rua Franz Joseph, justamente onde Gavrilo Principtomava um café, prestes a retornar para a sua casa. O carro com o arquiduque tentou, então, retornar para a avenida principal, visto que aquela rua não estava em seus planos. Foi justamente o momento que Gavrilo Princip esperava. Princip usou sua pistola e atirou várias vezes contra Franz Ferdinand e sua esposa, Sofia, ferindo o primeiro na região do pescoço e sua esposa na região do Abdômen. Ambos morreram a caminho do hospital.

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Gavrilo Princip

O arquiduque ainda estava vivo quando testemunhas chegaram para socorrê-lo, mas expirou pouco depois, dirigindo suas últimas palavras à esposa: “Não morra, querida, viva para nossos filhos.” Assessores ainda tentaram abrir sua farda, mas perceberam que teriam que cortá-la com uma tesoura. Sofia morreu a caminho do hospital. Princip utilizou-se de uma 7.65 x 17 mm Browning, de potência relativamente baixa, e de uma pistola FN Model 1910 para cometer os assassinatos.

Um relato detalhado do atentado foi descrito por Joachim Remak no livro Sarajevo:

Uma bala perfurou o pescoço de Francisco Fernando, enquanto a outra perfurou o abdome de Sofia (…) Como o carro estava manobrando (para retornar à residência do governador), um filete de sangue escorreu da boca do arquiduque sobre a face direita do Conde Harrach (que estava no estribo do carro). Harrach usou um lenço para tentar conter o sangue. Vendo isso, a duquesa exclamou: “Pelo amor de Deus, o que aconteceu com você?” e afundou-se no assento, caindo com o rosto entre os joelhos de seu marido.”

“Harrach e Potoriek (…) acharam que ela havia desmaiado (…) só o marido parecia ter idéia do que estava acontecendo. Virando-se para a esposa, apesar da bala em seu pescoço, Francisco Fernando implorou: “Sopherl! Sopherl! Sterbe nicht! Bleibe am Leben für unsere Kinder!” (“Querida Sofia! Não morra! Fique viva para os nossos filhos!!!”). Dito isto, ele curvou-se para a frente. Seu chapéu de plumas (…) caiu e muitas de suas penas verdes foram encontradas em todo o assoalho do carro. O conde Harrach puxou o colarinho do uniforme do arquiduque para segurá-lo. Ele perguntou: “Leiden Eure Kaiserliche Hoheit sehr?” (“Vossa Alteza Imperial está sentindo muita dor?”) “Es ist nichts…” (“Não é nada…”), disse o arquiduque com voz fraca, mas audível. Ele parecia estar a perder a consciência durante seus últimos minutos mas, com voz crescente embora fraca, repetiu esta frase, talvez, seis ou sete vezes mais.”
“Um ronconota começou a brotar de sua garganta, diminuindo quando o carro parou em frente ao Konak bersibin (Câmara Municipal). Apesar dos esforços médicos, o arquiduque morreu pouco depois de ser levado para dentro do prédio, enquanto sua amada esposa morreu de hemorragia interna antes da comitiva chegar ao Konak.”

 

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Farda do arquiduque, ainda com vestígios de sangue.

Funerais 

Após o embalsamamento, os corpos de Francisco Ferdinando e de sua esposa permaneceram na Konak bersibin de Sarajevo até serem embarcados num vagão funerário, na noite de 29 de julho. O arquiduque recebeu honras militares em todas as estações por onde o trem passou, sendo transferido para o SMS Viribus Unitis na costa do Adriático. O navio foi escoltado por outros cruzadores, destroieres, iates civis, barcos de pesca e até mesmo por balsas, aportando em Trieste na noite de 1 de julho, onde os caixões foram transferidos para um trem especial com destino a Viena.

Em virtude de seu casamento morganático com Sofia, Francisco Ferdinando não recebeu em solo austríaco, nenhuma das pompas reservadas aos arquiduques mortos nem os privilégios fúnebres reservados aos herdeiros do trono. O casamento morganático é aquele em que um(a) nobre, príncipe (princesa) ou rei (rainha) desposa alguém de posição social inferior, uma pessoa de baixa nobreza ou uma pessoa que não pertence à nobreza. No casamento morganático, geralmente o nobre mantém seus títulos, e até seus direitos de sucessão, mas fora algumas excepções, estes não são estendidos ao seu consorte nem aos seus filhos.

Alguns historiadores afirmam que os atrasos ocorridos no trajeto a Viena foram deliberadamente ordenados pelo príncipe Alfredo de Montenuovo, Obersthofmeister do imperador Francisco José, para que a chegada do féretro à capital ocorresse tarde da noite e, assim, não fosse visto pelo público. Com exceção do arquiduque Carlos, novo príncipe-herdeiro e futuro Carlos I, nenhum outro membro da família imperial compareceu à estação para recepcionar os caixões de Francisco Ferdinando e Sofia. Aos chefes de estado que manifestaram desejo de comparecer aos funerais, o príncipe de Montenuovo aconselhou gentilmente que enviassem apenas seus representantes diplomáticos para “evitar agravar o delicado estado de saúde de Sua Majestade com as exigências do protocolo.”

Às 8 horas da manhã seguinte, as portas da capela do Palácio de Hofburg foram abertas para que o povo pudesse prestar homenagens ao arquiduque. Por uma concessão especial do imperador, o caixão de Sofia pôde ser colocado ao lado do caixão do marido. Entretanto, a urna de Francisco, maior e mais ornamentada, foi instalada numa altura 20 cm superior à urna da consorte e, enquanto o corpo do ex-herdeiro portava todas as suas condecorações, a espada cerimonial e a coroa arquiducal; o corpo de sua “esposa morganática” portava apenas um par de luvas brancas e um leque negro – símbolos das damas-de-companhia da corte.

 

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Cortejo fúnebre de Francisco ainda em Sarajevo.

Como Sofia não poderia ser sepultada na Cripta Imperial de Viena, Francisco Fernando manifestou em vida o desejo de ser sepultado na cripta do Castelo de Artstetten, em Klein-Pöchlarn. Após apenas 15 minutos de ritos fúnebres, os caixões foram recolhidos e só puderam deixar Viena, em carros funerários da prefeitura, no início da madrugada, sendo embarcados em trem comum, sem honras ou escolta. Finalmente, a 1 hora da manhã de 4 de julho de 1914, os corpos do arquiduque e da duquesa foram sepultados no Castelo de Artstetten.

Os assassinatos, juntamente com a corrida armamentista, o imperialismo, o nacionalismo, o militarismo e o sistema de alianças contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial, que começou menos de dois meses após a morte de Francisco Fernando, com a declaração de guerra da Áustria-Hungria à Sérvia. O assassinato do arquiduque é considerado a causa mais imediata da Primeira Guerra Mundial.

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