28 de Julho de 1914 – A ‘guerra total’ que mobilizou a Europa

Soldados e civis, homens, mulheres, crianças, sindicalistas, artistas e cientistas deixaram de lado suas diferenças políticas para garantir a unidade nacional e a militarização da economia. Assim foi a Primeira Guerra Mundial, que mobilizou as nações europeias na chamada “guerra total”, sem precedentes na História.

“Nada poderá romper a união sagrada da Pátria francesa frente ao inimigo”, proclama o então presidente francês, Raymond Poincaré, em 4 de agosto de 1914. “Não conheço mais partidos, só conheço alemães”, disse o Kaiser Guilherme II, enquanto na Grã-Bretanha falava-se em “party truce”, ou trégua partidária.
A sergeant of the Lancashire Fusiliers in a flooded trench opposite Messines near Ploegsteert Wood. January 1917.
Na França, o fervor nacional foi particularmente poderoso no início da guerra, e até pacifistas como os socialistas Marcel Sembat e Jules Guesde apoiaram o governo. Em todos os países, foram votados orçamentos de guerra sem dificuldades, e as escassas vozes pacifistas eram inaudíveis. Esse quadro se manteve assim até pelo menos 1917, quando o desgaste de um sangrento conflito sem fim e o exemplo da Revolução Russa começaram a alimentar greves e motins, abalando as unidades nacionais.

Todos os beligerantes – principalmente França e Alemanha – mobilizaram suas energias no esforço de guerra.

Mobilização total para o armamento

As economias se organizam para responder às necessidades das Forças Armadas, em uma adaptação que é acompanhada do reforço considerável do papel do Estado e, às vezes, no caso dos impérios centrais, do controle militar sobre os recursos disponíveis. Tudo passa a ser organizado para garantir a produção de armamentos e de munições.

Para o historiador francês Jean-Yves Le Naour, o conflito foi “a primeira guerra industrial”. O Estado, afirma Le Naour, “assume o domínio da produção, ao distribuir os pedidos e as exportações, controlando as margens de lucro das empresas e a comercialização dos bens de consumo corrente”. A mobilização da economia traz como consequência sua racionalização e o “taylorismo”, com o surgimento das linhas de montagem nas fábricas.

Na Alemanha, a militarização é ainda mais significativa. “Todo o povo alemão deve estar a serviço da pátria”, proclama o marechal Hindenburg, que lança, em 1916, uma “requisição total” da mão de obra disponível. Já na França, nessa época um país ainda essencialmente agrícola, o conflito explode no período das colheitas. Os homens partem para a frente de batalha e as mulheres ganham importância, garantindo sozinhas o trabalho no campo.

A Tommy befriends two French children in June 1916.

Mulheres na linha de frente

As mulheres devem substituir “no campo aqueles que estão na frente (de batalha)”. E o país também necessitará delas na indústria, nos cargos administrativos e nas escolas. Surge a figura da operária encarregada de fabricar munições – sempre recebendo um pagamento inferior ao dos homens. Ocorre uma feminização da mão de obra, e se começa a ver mulheres de cabelo curto, de calça comprida e fumando. “Deixei um cordeiro e, quando voltei, era uma leoa”, teria dito um soldado, ao retornar da guerra.

A mobilização patriótica não poupa nem mesmo as crianças. Nesse período, “os deveres escolares”, conta o historiador francês André Loez, “consistem em redigir elogios para os soldados, ou calcular a produção de morteiros”. Os temas de redação podiam ser sobre a “bandeira ferida”, ou “uma carta a um soldado na frente”, exemplifica Jean-Yves Le Naour.

A propaganda e a censura militar estão onipresentes. O comando alemão dirige a “instrução patriótica” das tropas, enquanto os aliados tentam seduzir e angariar o apoio das diferentes nacionalidades do Império Austro-Húngaro. Em todos os países, uma enorme produção de imagens – cartazes, charges e cartões postais – lembra a população, o tempo todo, da valentia dos soldados, das atrocidades cometidas pelo inimigo e do dever de se participar do esforço de guerra.
Female road sweepers cleaning the streets of Liverpool as the men are away fighting. 21st March 1916
Intelectuais mobilizados

Apenas alguns poucos se rebelam contra essa mobilização geral, entre eles o jornal satírico francês “Le Canard Enchaîné”, fundado em 1915, que critica a manipulação nacionalista. Nem mesmo os sindicalistas, os intelectuais e os cientistas escapam dessa febre que toma conta da Europa.

O filósofo francês Henri Bergson apresenta a guerra como uma luta “da civilização contra a barbárie”. Algum tempo depois, 93 intelectuais alemães rebatem a declaração de Bergson para defender a posição de seu país, com um apelo ao “mundo civilizado”.

Químicos, físicos, biólogos e médicos colocam suas competências a serviço do governo, seja para a fabricação de novas armas, seja para a produção dos meios de se proteger delas.

Do lado sindical, a luta de classes é sacrificada pela guerra – pelo menos no início do conflito. “Foi na qualidade de cidadãos-soldado, e não como produtores, que os trabalhadores participaram da guerra”, esclarece o historiador irlandês John Horne. Na França, por exemplo, a Confederação Geral do Trabalho (CGT) convoca ao combate “contra os imperadores de Alemanha e Áustria-Hungria, contra a ordem da Prússia e dos grandes senhores austríacos, que, por ódio da democracia, quiseram a guerra”.

Os católicos franceses cerraram fileiras em nome da defesa da Pátria, atrás da República “ateia” que até há pouco atacavam. Na Alemanha, a religião também se soma à causa nacional, e os soldados levam a frase “Gott mit uns” (Deus conosco, em português) na fivela de seus cintos.

O Vaticano tenta impedir a matança daqueles que acreditam em um mesmo Deus, mas o apelo pela paz feito por Bento XV, em dezembro de 1914, cai no vazio. O furor das armas acabará por varrer o continente.

Pvt. Cleveland Frank Snoswell is welcomed home to Adelaide, Australia, at the end of the war. More than 60,000 Australians died in World War I, out of more than 400,000 who served.

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