8 de Fevereiro de 1945 – Fuga de Mikhail Ivanovich Devyatayev de Peenemunde

A incrível história por trás da fuga de um Oficial da Força Aérea Soviética que se livrou das garras da morte contando com a manipulação de seus conhecimentos sobre o front.

Quando historiadores se dedicam aos estudos sobre a Segunda Guerra Mundial, geralmente se vêem em meio às histórias icônicas de sobrevivência, heroísmo e altruísmo, e ao inferno destrutivo de batalhas titânicas, crimes de guerra, prisões e assassinatos. É comum citarmos histórias de soldados ou civis que vivenciaram a destruição de perto contando pelo menos com um ou dois destes elementos citados acima.

Porém, a história de Mikhail Ivanovich Devyatayev (1917-2002) é simplesmente impressionante, já que mostra um verdadeiro exemplo sobre como os conhecimentos obtidos durante a Segunda Guerra Mundial podem ser manipulados em favor da própria sobrevivência, bem como propiciar o avanço tecnológico de uma potência mundial.

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 Figura 1 – Mikhail Petrovich Devyatayev com a condecoração da Ordem de Lênin em 1942.

 

Inicio de carreira – Força Aérea Soviética.

Sua história, a princípio, nada tem a ver com a Força Aérea Soviética. Antes de a Alemanha invadir a Polônia e iniciar a maior guerra que o mundo já presenciou, Devyatayev trabalhava como capitão de um pequeno navio na flotilha do Rio Volga. Em 1938, no mesmo ano de sua formação como capitão de navio, resolveu ingressar na escola de pilotagens da Força Aérea Vermelha, graduando-se em 1940. O motivo para seu ingresso na Força Aérea provavelmente se deu à escassez de pilotos soviéticos, bem como a garantia de um futuro estável.

No ano seguinte (1941), Com a invasão da Alemanha à União Soviética, Devyatayev tornou-se um dos poucos aviadores soviéticos remanescentes deste ataque (Operação Barbarossa – Junho de 1941). A aviação soviética sofreu perdas catastróficas (com 1500 aviões abatidos, a maioria no solo devido à surpresa da invasão, a Força Aérea Vermelha ficou virtualmente inoperante por várias semanas). Devyatayev, mesmo em assombrosa desvantagem, conseguiu a façanha de derrubar um caça Stuka Ju-87 em 24 de Junho, sendo condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha (por bravura em combate). Em 23 de Setembro de 1941 Devyatayev foi abatido e ferido gravemente. Até aquele momento, seu score sobre inimigos abatidos eram de apenas nove aviões. Devyatayev voltaria à ativa como piloto de caça somente em 1944.

 

1944 – De volta ao front oriental: Queda, sobrevivência e fuga.

 

De volta a ativa em Julho de 1944, voando em um Lavochkin La-7, Devyatayev entrou em um dogfight (combate aéreo) contra dois FW-190 e foi abatido sobre Lwow (Polônia).

Agora sua luta pela sobrevivência ganha uma dimensão difícil de ser imaginado. Devyatayev conseguiu ejetar de seu avião, quebrando a perna esquerda na queda. Foi preso imediatamente e encaminhado para um Oflag (campo de prisão alemão para oficiais inimigos capturados). Neste campo de prisioneiros, Devyatayev contou com a ajuda de prisioneiros britânicos para se recuperar da fratura em sua perna. Foi transferido para o campo de prisioneiros de Sachsenhausen e depois para Konigsberg, onde seria executado. Porém, antes de sua execução, Devyatayev conseguiu trocar de identidade com um soldado raso soviético que já havia morrido, livrando-se da execução sumária devido o opróbrio de ser um oficial comunista.

Após nova triagem, Devyatayev foi transferido com um grupo de trabalhadores escravos para o centro alemão de testes de foguetes na ilha de Peenemunde.

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Figura 2 – Representação (em modelismo) sobre o campo de testes de Peenemunde.

 

Durante sua estadia neste campo de trabalhos forçados, Devyatayev foi submetido a subnutrição e maus tratos, trabalhando na montagem e desmontagem de foguetes V-1 e V2 até quase a exaustão. Quando chegou ao peso de 41Kg e se viu sem esperanças de sobrevivência, Devyatayev arquitetou um plano de fuga convencendo três compatriotas que estavam presos com ele (cujos nomes são: Solokov, Krivonogov e Nemchenko) de que ele seria capaz de levá-los a liberdade.

Em 8 de Fevereiro de 1945, um dos prisioneiros envolvidos no plano (Krivonogov) pegou um pé-de-cabra e abateu um guarda durante o horário do jantar (horário em que a vigília do pátio dos trabalhadores não tinha movimento), e rapidamente vestiu o uniforme do inimigo. Conduzidos por este novo “guarda”, Devyatayev e mais nove companheiros entraram em um Heinkel HE-111, e rapidamente ergueram vôo. O Oficial pilotava o bombardeiro, com as baterias antiaéreas da ilha tentando derrubá-lo incessantemente, sem sucesso.

 

De prisioneiro de guerra até a condecoração de Heroísmo: Traição, ostracismo, e reconhecimento tardio.

 

Após a fuga da Ilha de Peenemunde, Devyatayev sobrevoou o Báltico, atravessou novamente entre as baterias antiaéreas russas, evadiu-se de caças soviéticos em seu encalço e aterrissou em segurança em cima de um banco de neve, atrás das linhas soviéticas.

Depois desta fuga espetacular, não é difícil imaginar um final feliz para o Oficial e seus nove companheiros de fuga. Mas não houve final feliz. Devyatayev e seu grupo foram presos pela NKVD (antiga polícia secreta do partido soviético). Ao tentar explicar o que aconteceu, o oficial foi mantido sob custódia em uma solitária e seus companheiros nunca mais foram vistos (provavelmente executados pela NKVD). Devyatayev agora passaria por uma bateria de interrogatórios e torturas, já que tratado como um traidor por ter se tornado um prisioneiro de guerra.

Ninguém lhe contou sobre a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Devyatayev só ficou sabendo da derrota alemã quando foi conduzido pela NKVD à Peenemunde e Sachsenhausen, na Alemanha, em 1947, no mesmo ano em que foi solto.

Suas tribulações não findaram após a soltura. Após receber suas documentações e papéis, Devyatayev foi marcado com os carimbos vermelhos de “ex-Prisioneiro de Guerra” e “Traidor”. Incrivelmente conseguiu se livrar do ultimo expurgo de Stalin no pós-guerra (1946), aos quais milhares de ex-prisioneiros de guerra foram sumariamente executados pela NKVD sob pretexto de traição. Devyatayev tentou por vários anos procurar um emprego em várias províncias soviéticas, sem sucesso. Por fim, conseguiu um emprego como trabalhador braçal em sua província natal (Kazan) e mergulhou no ostracismo, tornando-se um pária social devido às informações carimbadas em sua documentação.

Em 1957, após a retratação de Khruschov sobre as atrocidades de Stálin, Sergey Korolev, chefe do programa espacial soviético, apresentou aos líderes do partido comunista a importância que Devyatayev teve ao ceder (sob interrogatórios e torturas pela NKVD) todos os conhecimentos técnicos sobre a construção dos foguetes V1 e V2, e que muito provavelmente não existiria programa espacial soviético se não fosse pelo conhecimento obtido por ele. Devyatayev foi procurado pelas autoridades soviéticas e obteve não apenas o perdão presidencial, como também foi imediatamente alçado a condecoração como Herói da União Soviética (a maior condecoração de sua pátria na guerra), recebendo também mais uma vez a Ordem da Bandeira Vermelha (por bravura extraordinária – provavelmente por causa da fuga de Peenemunde), a Ordem da Guerra Patriótica (1ª e 2ª Classe) e a Medalha da Estrela Dourada, por serviços prestados durante a campanha.

E o que Devyatayev fez após de ser reconhecido? Voltou a trabalhar como capitão de um pequeno navio na flotilha do Volga,, voltando ao mesmo patamar que estava em 1938.

Foi nomeado cidadão honrado da Republica de Moldóvia e cidadão honrado de Kazan (sua cidade natal). Devyatayev morreu em Kazan no ano de 2002. Atualmente existe um museu sobre os seus feitos na cidade de Torbeyevo (erigido em 1975) e dois monumentos em sua homenagem em Kazan e Usedom.

 Por Daniel Ramsés

Fontes:

DAVIES, Norman. Europa na Guerra (1939 – 1945). Tradução: Victor Paolozzi. Rio de Janeiro: Record, 2009 – pp 293 – 297.

Wikipédia (em inglês – traduções de artigos da década de 70 e 80 em linguagem russa).

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