27 de Junho de 2005 – Operação Red Wings, a missão que inspirou o filme “O Grande Herói”

A ‘Operação Asas Vermelhas’ (Operation Red Wings) foi uma missão de contra-terrorismo fracassada na província de Kunar, no Afeganistão, ocorrida em 27 de junho de 2005. A operação contou com a participação de 20 soldados de elite dos EUA, dos quais 12 eram SEALs.

Operação Red Wings, informalmente intitulada como a Batalha de Abbas Ghar (muitas vezes, incorretamente, chamada de “Operação Redwing” ou “Operação Red Wing” devido a ação nuclear homônima de 1956), foi uma operação militar durante a Guerra no Afeganistão no distrito de Pech, na província de Kunar, no Afeganistão, nas encostas de uma montanha chamada Sawtalo Sar, localizado a aproximadamente 20 milhas (32 km) a oeste da capital da província de Kunar, Asadabad, em final de junho 2005.

A Operação Red Wings tinha a intenção de interromper a atividade das milícias anti-coalizão locais (ACM), contribuindo assim para a estabilidade regional e facilitando, assim, as eleições para o Parlamento afegão, marcadas para setembro de 2005. Na época, a atividade de milícia anti-coalizão na região foi levada a cabo, principalmente, por um pequeno grupo liderado por um homem local da província de Nangarhar, Ahmad Shah, que tinha aspirações de proeminência fundamentalista islâmica regional. Ele e seu pequeno grupo estavam entre os principais alvos da operação.

Ahmad Shah

A operação foi concebida pelo 2º Batalhão, 3º Grupo do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, com base em um modelo operacional desenvolvido pelo 3º Batalhão da Marinha, que precedeu o 2º Batalhão na sua implantação de combate. Utilizou unidades e ativos das forças de operações especiais (SOF), incluindo membros dos SEALs da Marinha dos EUA e do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais do Comando de Operações Especiais do Exército dos EUA (SOAR), para a fase de abertura da operação. Uma equipe de quatro SEALs da Marinha, encarregados da vigilância e reconhecimento de um grupo de estruturas conhecidas por serem usados ​​por Shah e seus homens, caiu em uma emboscada poucas horas depois de serem inseridos na área por um Helicóptero MH-47 Chinook. Três dos quatro SEALs foram mortos, e um helicóptero de reação rápida enviado para apoio foi abatido com uma granada lançada por um RPG-7, matando todos os oito Navy SEALs e oito aviadores das Operações Especiais do Exército dos EUA à bordo.

A operação subsequente ficou conhecida, então, como “Red Wings II” e durou aproximadamente mais três semanas, durante a qual os corpos dos falecidos SEALs e dos aviadores das Operações Especiais do Exército foram recuperados e o único sobrevivente da equipe inicial, Marcus Luttrell, foi resgatado. Embora o objetivo da operação tenha sido parcialmente alcançado, Shah se reagrupou no Paquistão e retornou com mais homens e armamentos, auxiliado pela notoriedade que ganhou com a emboscada dos Red Wings e com o abate de helicópteros. Várias semanas depois, o grupo de Shah, na província de Kunar, foi atingido até o ponto de inoperabilidade e Shah foi seriamente ferido durante a Operação Baleeiros, em agosto de 2005.

SEALs antes da Operação Red Wings (da esquerda para a direita): Matthew Axelson, Daniel R. Healy, James Suh, Marcus Luttrell, Eric S. Patton e Michael P. Murphy

Antecedentes e desenvolvimento

Após a invasão inicial do Afeganistão em 2001, as operações dos militares e da coalizão dos EUA passaram de operações “cinéticas” para operações de natureza contra-insurgente (COIN). Um dos principais objetivos da coalizão, em 2004, no Afeganistão era a construção de uma nação, isto é, proporcionar um ambiente de segurança que propiciasse o estabelecimento e o crescimento de um governo democraticamente eleito, bem como apoio à infraestrutura. Um marco importante nesta campanha seriam as eleições parlamentares nacionais afegãs de 18 de setembro de 2005. Enquanto muitas das províncias do Afeganistão nessa época tinham ambientes de segurança estáveis, uma das mais inquietas continuou a ser a província de Kunar, que fica no leste do Afeganistão, na fronteira com o Paquistão. Para que os resultados eleitorais fossem vistos como legítimos pelos cidadãos do Afeganistão e do mundo em geral, todas as eleições em todo o país precisariam continuar “desimpedidas” (sem influência externa por forças americanas, de coalizão, por talibãs e antiamericanos, coligação ou forças armadas), incluindo as de Kunar.

A atividade insurgente na província de Kunar durante esse período vinha de 22 grupos identificados, grupos individuais dos quais variavam em lealdade daqueles com vínculos tênues com o Talibã e a Al-Qaeda, sendo a maioria nada mais que criminosos locais. Esses grupos eram conhecidos coletivamente como milícia anti-coalizão (ACM) e o fio comum entre todos era uma forte resistência à unificação do país e subsequente crescente presença de entidades governamentais nacionais no Kunar, já que estes representariam uma ameaça às suas atividades, sejam estas atividades que tentam ajudar um ressurgente neo-Talibã, a contrabandear madeira. Com o objetivo de promover eleições bem-sucedidas em Kunar, as operações militares na área se concentraram principalmente na interrupção da atividade do ACM e essas operações militares utilizaram uma série de unidades e atuações operacionais diferentes para alcançar esse objetivo.

O 3º Batalhão do 3º Regimento Marine(3/3), que se deslocou para o Comando Regional Leste (RC East) (que incluía a Província de Kunar) no final de 2004 para realizar operações de estabilidade e contra-insurgência em apoio à Operação Liberdade Duradoura, identificou várias barreiras operacionais devido à doutrina do Comando de Operações Especiais para o trabalho de contra insurgência do batalhão na área. Essas barreiras incluíam a não-partilha de inteligência com o batalhão e a não divulgação de ataques iminentes por unidades de operações especiais na área. Para mitigar esses problemas, a equipe do 3/3 desenvolveu um modelo operacional que integra operações especiais e obriga a união em suas ações, permitindo o compartilhamento de inteligência entre o batalhão e as forças de operações especiais. Além de manter controle operacional sólido das ações com ativos de operações especiais integrados, as operações realizadas em 3/3 com base nesse modelo foram bem-sucedidas ao interromper a atividade do ACM.

Membros do SEAL Team 10

A primeira delas, a Operação Spurs (em homenagem ao time de basquete San Antonio Spurs), realizada em fevereiro de 2005, aconteceu no Vale Korengal, no distrito de Pech, na província de Kunar. Spurs utilizaram Navy SEALs para duas, de cinco, fases iniciais desta operação. Operações similares que se seguiram incluíram a Operação Mavericks (nomeada em homenagem ao time de basquete Dallas, Mavericks) em abril de 2005 e a Operação Celtics (em homenagem ao time de basquete do Boston Celtics) em maio de 2005. Essas operações, todas as quais incluíam SEALs da Marinha, foram concebidas e planejadas pelo batalhão, porém com as especificidades das fases envolvendo os Navy SEALs sendo planejadas pelos próprios SEALs. Cada operação durou entre três e quatro semanas. O 3/3 planejou e executou aproximadamente uma dessas operações por mês, mantendo um tempo operacional consistente. O ponto culminante dos esforços do 3/3 foi a captura, em abril de 2005, de uma meta regional (e nacional) de “alto valor”, um comandante da ACM conhecido como Najmudeen, que baseou suas operações fora do Vale Korengal. Com a captura de Najmudeen, a atividade da ACM na região caiu significativamente, no entanto, deixou um vácuo de poder na região.

O 3/3 rastreou um grande número de grupos Anti-coalizão procurando preencher o vazio político na região. O batalhão começou a planejar uma nova operação, chamada provisoriamente de Operation Stars, em homenagem ao time de hóquei profissional Dallas Stars (O comandante do batalhão, Tenente-Coronel Norman Cooling, veio do Texas, daí a maioria das operações sendo nomeado em homenagem a equipes esportivas do Texas.). A Operação Estrelas, como outras operações anteriores, concentrou-se em interromper a atividade da MCA, embora, devido a captura de Najmudeen, essa atividade tenha diminuído e grupos específicos se mostrassem difíceis de identificar.

Em maio de 2005, o Partido Avançado do Batalhão, o 2 º Batalhão do 3 º Regimento Marinho (2/3) chegou para atuar na região. Desde antes de se posicionar no Afeganistão, o oficial de inteligência do 2/3, o capitão Scott Westerfield e seus assistentes, estavam rastreando uma pequena célula liderada por um homem chamado Ahmad Shah, baseado em informações enviadas pelo oficial de inteligência do 3º Batalhão. Shah era de uma região remota na província de Nangarhar, que faz fronteira com o lado sul da província de Kunar. Shah, eles determinaram, foi responsável por aproximadamente 11 incidentes contra forças da coalizão e entidades do governo do Afeganistão, incluindo emboscadas com armas pequenas e ataques com dispositivos explosivos improvisados. Em junho de 2005, o 2º Batalhão substitui o 3º Batalhão, e adotaram o conceito da Operation Stars e desenvolveram uma operação abrangente que chamaram de Operação Red Wings, com o objetivo de interromper a atividade das milícias anti-coalizão, em especial interromper as atividades de Ahmad Shah, baseadas perto do cume de Sawtalo Sar.

Cume da Montanha Sawtalo Sar. Nota-se, ao fundo, a presença de um Helicóptero UH-60 Black Hawk.

A equipe do 2º Batalhão começou imediatamente a planejar a Operação Red Wings assim que chegaram ao Afeganistão. O tenente-coronel Andrew MacMannis, comandante do 2º Batalhão, e sua equipe, queriam manter o ritmo operacional estabelecido pelo grupo anterior. O Diretor de Operações, Major Thomas Wood, começou a planejar a base Red Wings off the Stars, que era uma operação de cinco fases. Durante esse tempo, o Oficial de Inteligência, Capitão Scott Westerfield, se concentrou mais em aprender sobre Ahmad Shah. Sua visão geral de inteligência sobre Shah deu um salto substancial quando o 2º Tenente Regan Turner, um comandante de pelotão da “Whiskey Company” (Empresa de caráter privado), reuniu grande quantidade de informações sobre Shah durante um patrulha, incluindo seu nome completo, Ahmad Shah Dara-I-nur (Ahmad Shah do Vale dos Iluminados), seu local de nascimento (distrito de Kuz Kunar, na província de Nangarhar), seu principal apelido (Ismael), seu homem de confiança (Gulbuddin Hekmatyar – que trabalhava fora do Campo de Refugiados de Shamshato, perto de Peshawar, Paquistão), o tamanho de sua equipe (cinquenta a cem milicianos) e suas aspirações (impedir as próximas eleições e tentar ajudar o fortalecimento Taleban na região). Embora Shah fosse uma entidade relativamente desconhecida na região, ele aparentemente tinha aspirações regionais e possivelmente teve a ajuda de Gulbuddin Hekmatyar. O 2º Tenente Turner também reuniu várias fotografias de Shah.

Outras informações, colhidas a partir de interrogatórios e coletas, indicaram que Shah baseou suas operações insurgentes/terroristas em algumas pequenas áreas fora do vilarejo de Chichal, no alto das encostas da montanha Sawtalo Sar, no vale superior de Korengal, a aproximadamente 32 quilômetros a oeste da capital provincial de Kunar, Asadabad. Usando inteligência imagética tirada de um UAV, em 17 de junho de 2005, Westerfield identificou prováveis ​​estruturas usadas para abrigar a equipe de Shah e a confecção de IEDs (Dispositivo explosivo improvisado), além da identificação de quatro áreas de Interesse Nomeadas, ou NAIs, contendo estruturas específicas que Shah poderia estar usando. Westerfield e sua equipe determinaram que Shah e seus homens foram responsáveis ​​por aproximadamente 11 ações contra equipes americanas, da coalizão e do governo do Afeganistão, incluindo ataques de IED e pequenas emboscadas. Eles determinaram que Shah e seus homens estariam ocupando a área de Chichal no final de junho. A operação exigiria uma inserção de forças utilizando helicópteros para cercar a área e procurar Shah e seus homens. Após a identificação positiva do alvo, a operação seria realizada à noite devido ao período de baixa luminosidade lunar por uma equipe do Corpo de Fuzileiros Navais/Sniper que entraria na área, sob cobertura da escuridão, algumas noites antes.

Tal como aconteceu com o 3º Batalhão, o 2º Batalhão procurou usar os ativos das Forças de Operações Especiais para Red Wings, mas ao contrário de 3º, eles procuraram apenas o uso de operações especiais de aviação, especificamente, com aeronaves MH-47 do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais do Comando de Operações Especiais (Aerotransportado – SOAR), e não forças terrestres. O comando do qual os planejadores do 2º Batalhão solicitaram isso, no entanto, (CJSOTF-A, ou Combined Joint Special Operations Task Force – Afeganistão) recusou este pedido, afirmando que para Red Wings ser apoiado pela aviação o batalhão teria necessidade das Forças de Operações Especiais para as fases de abertura, com os Marines atuando em um papel de apoio. Após as fases iniciais dos Red Wings, o 2º Batalhão poderia ser considerado o elemento principal, porém apoiado. O batalhão concordou com isso, percebendo, no entanto, que essa estrutura de comando não convencional desafiava um princípio fundamental de operações militares bem-sucedidas – “unidade de comando”. A operação foi apresentada a várias unidades de Operações Especiais que trabalham na área para possível “compra”. Os SEALs (Marinha dos EUA) da SEAL Team 10 e a Equipe de Veículos de Entrega SEAL 1 manifestaram interesse.

A variante MH-47D foi desenvolvida para operações de forças especiais e tem capacidade de reabastecimento em voo, um sistema de rapel de corda rápida e outras atualizações. O MH-47D foi usado pelo 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais do Exército dos EUA. 12 helicópteros MH-47D foram produzidos. Seis foram conversões de modelos CH-47A e seis foram conversões de modelos CH-47C.

A Red Wings foi planejado como uma operação de cinco fases:

  1. Shaping: Uma equipe de reconhecimento e vigilância SEAL da Marinha dos EUA é encarregada de se infiltrar na região dos supostos edifícios seguros de Ahmad Shah, observar e identificá-lo, bem como seus homens e locais específicos, além de guiar uma equipe de ação direta da fase dois para estruturas em que Shah e seus homens se estabeleceram.
  2. Ação no Objetivo: Uma equipe de ação direta do SEAL é inserida por um MH-47, seguido pelos Marines, para capturar ou matar Shah e seus homens.
  3. Cordão Externo: Os fuzileiros navais, junto com os soldados do Exército Nacional Afegão, devem varrer os vales circundantes em busca de outros insurgentes suspeitos.
  4. Segurança e Estabilização: Nos dias subsequentes às três primeiras fases, fuzileiros navais dos EUA e soldados afegãos, além de paramédicos da Marinha dos EUA, fornecerão assistência médica à população local e determinarão as necessidades locais, tais como estradas, poços e escolas melhoradas.
  5. Exfiltração: Dependendo da atividade do inimigo, os fuzileiros navais permanecerão na área por até um mês para então deixarem a área.

Enquanto os fuzileiros navais planejavam a operação geral, os SEALs planejavam as especificidades de seus papéis na Red Wings.

Mapa de planejamento da Operação Red Wings

A Ação

No final da noite de 27 de junho de 2005, dois helicópteros de operações especiais MH-47 do 160º Regimento de Operações Especiais do Comando de Operações Especiais do Exército (Aerotransportado) (SOAR (A)) se aproximaram de Sawtalo Sar. Como uma das aeronaves executou uma série de “movimento de isca” para confundir qualquer possível inimigo no solo quanto ao propósito específico dos helicópteros, a outra inseriu, via fastrope (cordas de desembarque), uma equipe de reconhecimento e vigilância SEAL composta por quatro homens saltam entre Sawtalo Sar e Gatigal Sar, um pico logo ao sul de Sawtalo Sar. O ponto de inserção estava a aproximadamente uma milha e meia (cerca de 2,4km) da área de interesse nomeada mais próxima. Os membros da equipe eram o líder da equipe, o Tenente da Marinha Michael P. Murphy, da Equipe de Veículos de Entrega da SEAL 1 (SDVT-1), baseado em Pearl Harbor, Havaí; o Suboficial Segunda Classe Danny Dietz da Equipe de Veículos de Entrega SEAL 2 (SDVT-2), sediada em Virginia Beach, Virgínia; o Suboficial de segunda classe Matthew G. Axelson da Equipe de Veículos de entrega SEAL 1 (SDVT-1); e o Especialista Médico Segunda Classe Marcus Luttrell, da Equipe de Veículos de Entrega da SEAL 1 (SDVT-1). Depois de se mudar para uma posição predeterminada e coberta, a partir da qual os SEALs puderam observar as Áreas de Interesse Nomeadas, a equipe foi descoberta por pastores de cabra locais. Determinando que eram civis, não combatentes, o tenente Murphy os libertou, de acordo com as regras de engajamento.

SEAL Team 10

A equipe, supondo que eles provavelmente seriam comprometidos, recuou para uma posição de segurança. Em uma hora, a equipe de Reconhecimento e Vigilância SEAL foi atacada por Shah e seus homens que estavam armados com metralhadoras RPK, AK-47s, granadas de propulsão RPG-7 e um morteiro de 82mm. A intensidade do fogo, combinada com o tipo de ataque, forçou a equipe SEAL a entrar no penhasco nordeste de Sawtalo Sar, no lado do Vale Shuryek de Sawtalo Sar. Os SEALs fizeram várias tentativas de contatar seu centro de operações de combate com um rádio multi-bandas e depois com um telefone via satélite. A equipe não conseguiu estabelecer uma comunicação consistente, a não ser por um período breve o suficiente para indicar que eles estavam sob ataque. Três dos quatro membros da equipe foram mortos e o único sobrevivente, Marcus Luttrell, ficou inconsciente com várias fraturas e ferimentos graves. Ele recuperou a consciência e foi resgatado por civis locais que, enfim, salvaram sua vida. Pela sua condição física, sem assistência, ele certamente teria sido morto ou capturado pelo Talibã.

Com a informação de que a equipe de reconhecimento e vigilância do SEAL foi emboscada, o foco da operação mudou imediatamente: de interromper a atividade do ACM local para encontrar, auxiliar e extrair os SEALs da equipe de reconhecimento e vigilância. A operação agora era conhecida como Operação Red Wings II.

Em vermelho, local da emboscada sofrida pelos SEALs.

Após a transmissão interrompida da equipe de reconhecimento e vigilância SEAL, a posição e a situação dos SEALs se tornaram desconhecidas. Membros da Equipe SEAL 10, fuzileiros navais dos EUA e aviadores do 160º Regimento de Operações Especiais da Aviação estavam preparados para enviar uma força de reação rápida, mas o comando para o lançamento foi adiado por várias horas. Uma força de reação rápida finalmente foi lançada, consistindo em duas aeronaves de operações especiais MH-47 do 160th, dois helicópteros convencionais Black Hawk (UH-60) da aviação do Exército e dois helicópteros de ataque AH-64 Apache. Os dois MH-47 assumiram a liderança. Ao chegar a Sawtalo Sar, os dois MH-47 receberam fogo de armas pequenas. Durante uma tentativa de inserir os SEALs que estavam em um dos helicópteros MH-47, um dos homens de Ahmad Shah disparou uma granada de foguete RPG-7, que atingiu a transmissão abaixo do conjunto do rotor traseiro, fazendo com que a aeronave caísse imediatamente matando todos os oito aviadores e tripulantes das Operações Especiais do Exército e todos os oito SEALs embarcados. Ambos os comandantes do 160º, o comandante de solo LCDR Erik S. Kristensen, do SEAL Team 10, e o Major Stephen C. Reich foram mortos na queda. O Comando e Controle (C2) neste ponto foram perdidos e nem contato visual, tão pouco via rádio, pôde ser estabelecido com a equipe de reconhecimento e vigilância SEAL. A essa altura, no fim da tarde, nuvens de tempestade se moviam sobre a região. As aeronaves retornaram às suas respectivas bases e uma busca maciça começou, inicialmente a partir do solo, e depois com os ativos da aviação. Os 16 corpos daqueles que morreram na queda do MH-47 foram recuperados. Após uma busca intensiva, os corpos de Dietz, Murphy e Axelson foram finalmente recuperados, e Marcus Luttrell foi resgatado. Sua sobrevivência foi devida, em parte, à ajuda de um aldeão local afegão na aldeia de Salar Ban, a aproximadamente 1,1 km abaixo do desfiladeiro nordeste de Sawtalo Sar, local da emboscada.

                     Erik Kristensen

Nos anos que se seguiram à Operação Red Wings, surgiram mais detalhes sobre as circunstâncias em que Luttrell se refugiou por meio de aldeões locais. Muitos dos detalhes sobre os afegãos que ajudaram Luttrell foram relatados incorretamente na imprensa americana durante os dias após os eventos terem ocorrido. O tiroteio dos SEALs com as forças talibãs de Ahmad Shah começou ao longo de uma cordilheira de alta elevação chamada Sawtalo Sar (seu pico mais alto é de 2.830 metros (9.282 pés)). Uma descida no lado oeste da cordilheira conduz ao vale de Shuryek. O desfiladeiro nordeste, no qual os SEALs ficaram presos, foi nessa direção, acima da aldeia de Salar Ban. Já a leste da cordilheira de Sawtalo Sar fica o vale de Korengal. Quando Luttrell, gravemente ferido, desceu a garganta da montanha, ele encontrou um afegão chamado Mohammad Gulab Khan da aldeia montanhosa de Salar Ban. Conhecido simplesmente como Gulab, ele levou Luttrell a sua casa naquele primeiro dia e evocou a ajuda de outros de sua aldeia para proteger Luttrell até que forças americanas pudessem ser contatadas. Isso estava de acordo com a tradição cultural do Pashtunwali, segundo a qual o asilo (Nanawatai) é oferecido a uma pessoa para protegê-la de seus inimigos. É provável que Luttrell tenha sido entregue ao Talibã se tivesse descido ao Korengal em vez de Shuryek. Não muito antes de a Operação Red Wings ter ocorrido, as relações com os americanos haviam melhorado no vale de Shuryek e na região do rio Pech, devido ao trabalho humanitário que vinha ocorrendo. Os serviços médicos foram ampliados e uma escola de meninas foi construída em Nangalam. Gulab estava ciente desses desenvolvimentos e apresentou-se ao comandante da Marinha em Nangalam, Matt Bartels, quando visitava Matin. Foi nesse contexto que Gulab tropeçou em Luttrell e deu-lhe abrigo. O líder do Taleban, Ahmad Shah, sabia que o homem ferido que ele estava rastreando tinha que passar pela aldeia de Salar Ban enquanto contornava a colina. Através da intimidação, Shah pôde averiguar qual casa abrigava o homem ferido e exigiu que ele fosse entregue. Mas Shah não podia arriscar uma luta naquele momento porque estava em menor número, pois outros parentes e aldeões certamente iriam socorrer Gulab. Luttrell foi, posteriormente, transferido para lugares diferentes até que forças pudessem finalmente extraí-lo.

Afghan villager Mohammed Gulab

Mohammad Gulab Khan, o “anfitrião” de Marcus Luttrell

Luttrell escreveu uma nota e pediu que ela fosse levada para a base americana em Asadabad. Como Gulab havia se encontrado com o comandante dos fuzileiros navais em Nangalam, ele pediu a um homem mais velho chamado Shina, de outra parte da aldeia de Salar Ban, para fazer a jornada com a nota para aquela base. Isso exigiu uma jornada mais longa pelas trilhas do vale de Shuryek até Matin, onde ele então contratou um táxi para conduzi-lo pela estrada de Pech até Nangalam. Gulab deu a Shina 1.000 Afghanis (cerca de vinte dólares americanos) para tal trabalho. Quando Shina chegou à base em Nangalam, no meio da noite, ele se encontrou com o comandante e relatou a história de um soldado americano ferido em sua aldeia entregando, então, a nota que Luttrell havia escrito. Nas semanas seguintes ao resgate de Marcus Luttrell, Gulab e sua família receberam ameaças do Talibã tendo que transferi-los para Asadabad.

Baixas americanas

Nome Idade Ação Cidade Natal
Navy SEALs
LT Michael P. Murphy 29 Parte da equipe SEAL morta na emboscada Patchogue, New York
SO2 Matthew Axelson 29 Cupertino, California
SO2 Danny Dietz

 

25

 

Littleton, Colorado

 

SOC Jacques J. Fontan 36

Membros da equipe SEAL abatidos com a queda do helicóptero.

New Orleans, Louisiana
SOCS Daniel R. Healy 36 Exeter, New Hampshire
LCDR Erik S. Kristensen 33 San Diego, California
SO1 Jeffery A. Lucas 33 Corbett, Oregon
LT Michael M. McGreevy, Jr. 30 Portville, New York
SO2 James E. Suh 28 Deerfield Beach, Florida
SO1 Jeffrey S. Taylor 30 Midway, West Virginia
SO2 Shane E. Patton 22 Boulder City, Nevada
 

160th Regimento Operações Especiais de Aviação

 

SSG Shamus O. Goare 29 Mortos com a queda do helicóptero. Danville, Ohio
CWO3 Corey J. Goodnature 35 Clarks Grove, Minnesota
SGT Kip A. Jacoby 21 Pompano Beach, Florida
SFC Marcus V. Muralles 33 Shelbyville, Indiana
MSG James W. Ponder III 36 Franklin, Tennessee
MAJ Stephen C. Reich 34 Washington Depot, Connecticut
SFC Michael L. Russell 31 Stafford, Virginia
CWO4 Chris J. Scherkenbach 40 Jacksonville, Florida

 

Pós-ação e Repercussão

Ahmad Shah e seu grupo recuperaram uma grande quantidade de armas, munições e outros materiais, incluindo três Fuzis M4 SOPMOD equipadas com lançadores de granadas M203 de 40mm, um laptop robusto com um disco rígido intacto contendo mapas de embaixadas em Cabul, equipamentos de visão noturna e um Sniper Spotting Scope (espécie de “monóculo” usado para alinhar disparos de precisão) entre outros itens da equipe de reconhecimento e vigilância SEAL. Estes itens poderiam, então, serem usados contra entidades americanas, da Coalizão e do governo do Afeganistão. Shah teve com ele dois cinegrafistas durante a emboscada e As-Sahab Media lançou um vídeo da emboscada, bem como dos itens recuperados dos SEALs.

Uma grande quantidade de recursos foi dedicada às operações de busca, resgate e recuperação durante a Red Wings II. Como tal, Ahmad Shah e seus homens deixaram a região e se reagruparam no Paquistão. Durante as semanas seguintes a Red Wings II, unidades terrestres do 2º Batalhão empreenderam uma série de patrulhas, assim como os membros do Exército Nacional Afegão, unidades de Operações Especiais do Exército e Unidades de Operações Especiais da Marinha. Essas “operações de presença” alcançaram o objetivo de interromper a atividade das milícias anti-coalizão, mas com grande custo, e semanas depois após a exfiltração das respectivas tropas, Ahmad Shah e sua milícia, já reforçada, puderam retornar à área.

Michael Murphy (à esquerda) com Matthew Axelson, no Afeganistão

Uma quantidade enorme de atenção da mídia global estava focada na emboscada e na derrubada do MH-47. O tamanho do grupo de Shah aumentou à medida que combatentes adicionais se juntaram a ele. Com a retirada das tropas americanas e da Coalizão no final da Red Wings II, Shah e seu grupo puderam retornar à província de Kunar e perpetrar novos ataques. A “sequela” da Operação Red Wings foi a Operação Baleeiros, onde o 2º Batalhão planejou e executou em agosto de 2005. Alguns sobreviventes desta operação sofreram de Desordem Pós-traumática e o grupo de Ahmad Shah, estabelecido na província de Kunar, fora neutralizado, tendo Shah ficado seriamente ferido. Em abril de 2008, Shah foi morto durante um tiroteio com a polícia paquistanesa no Khyber-Pakhtunkhwa.

Em 14 de setembro de 2006, Dietz e Axelson foram condecorados postumamente com a Cruz da Marinha por “coragem destemida” e heroísmo. Luttrell também foi premiado com a Cruz da Marinha, em uma cerimônia na Casa Branca. Em 2007, Murphy foi postumamente premiado com a Medalha de Honra por suas ações durante a batalha. Em 28 de junho de 2008, Luttrell e os membros da família dos soldados mortos foram homenageados em um evento esportivo de San Diego Padres. Nesta celebração, a Equipe de Paraquedistas da Marinha dos Estados Unidos, a Leap Frogs, trouxe a bandeira americana, a bandeira POW / MIA e a bandeira de San Diego Padres. Os participantes foram aplaudidos de pé pelos mais de 25.000 presentes no estádio. Uma estátua intitulada The Guardians está no Cupertino Veterans Memorial Park, em Cupertino, Califórnia. Esculpida pelo notável artista W. Stanley Proctor, a estátua retrata Matthew Axelson e James Suh, então moradores da cidade.

Placa comemorativa em memória aos “Stalkers” mortos na operação Red Wings

Informações desencontradas

Existe algum conflito sobre o número exato de forças talibãs envolvidas no engajamento, entre outros erros cometidos por algumas fontes. No relatório oficial pós-ação de Luttrell, arquivado com seus superiores após o seu resgate, ele estimou que o tamanho da força talibã fosse próximo de 20 a 35 milicianos. Luttrell afirma em seu livro que, durante o briefing, sua equipe foi informada de que poderiam haver entre 80 e 200 inimigos na área. Estimativas iniciais da inteligência estimaram entre 10 e 20. Relatórios oficiais do Setor de Informações dos militares estimavam que o tamanho da força do Talibã também estaria em torno de 20, enquanto na citação da Medalha de Honra do tenente Michael P. Murphy, a Marinha citou de 30 a 40 inimigos. No Sumário de Ação relacionado, a Marinha cita uma “força inimiga de mais de 50 milicianos anti-coalizão”. Em seu livro “Victory Point: Operações Red Wings and Whalers”, o jornalista militar Ed Darack cita um relatório de inteligência militar afirmando que a força da força Talibã era de 8 a 10, número bem distinto se comparado com os 80-200 reivindicado por Luttrell em Lone Survivor. A estimativa da inteligência militar citada por Darack é baseada em pesquisas provenientes de relatórios de inteligência, incluindo estudos aéreos e de testemunhas oculares do campo de batalha após o fato, incluindo os homens enviados para resgatar Luttrell, bem como relatórios da inteligência afegã.

Outro ponto incerto é sobre a alegação no livro de memórias de Luttrell, Lone Survivor (escrito por Patrick Robinson), de que o tenente Murphy considerou e depois votou a uma possível execução dos civis desarmados que tropeçaram com a equipe de reconhecimento e vigilância do SEAL. Esta afirmação foi criticada e descartada por muitos. Em um artigo de Sean Naylor, correspondente sênior do Exército pela Times, o porta-voz do Comando de Guerra Especial da Marinha, tenente Steve Ruh, afirmou que com relação a tomar decisões de comando no campo: “Sejam oficiais ou alistados, o último tem a autoridade final. ” E no que diz respeito a votar se deve ou não executar civis desarmados, ele admitiu: “Esta é a primeira vez que eu já ouvi falar de qualquer coisa posta em votação assim. Nos meus 14 anos de experiência na Marinha, eu nunca vi ou ouvi falar de qualquer coisa assim.” No artigo de 12 de junho de 2007,  intitulado “O livro de Survivor desonra a memória do filho” de Michael Rothfeld, no Newsday, o pai de Michael P. Murphy, Dan, afirma que o tenente Murphy nunca consideraria a execução de civis desarmados, quanto mais. Protocolos militares, doutrinas e regras de engajamento proíbem estritamente o dano a civis, não combatentes e desarmados.

Marcus Luttrell (esquerda) foi o único dos quatro SEALs a sobreviver depois que ele foi salvo pelo aldeão Mohammed Gulab (direita).

Tenente Michael P. Murphy, da Marinha dos EUA, ganhador da Medalha de Honra póstuma

Danny Dietz

Matthew Axelson

 

ANÁLISE COMPLETA

 

Vídeo em Inglês sobre as ações subsequentes a Red Wings.

 

 

DOWNLOAD:

EBOOK – Marcus Luttrell e Patrick Robinson: O Grande Herói.

FILME:

Peter Berg – O Grande Herói

 

GALERIA

Bibliografia:

  • Darack, Ed (2009). Victory Point: Operations Red Wings and Whalers – The Marine Corps’ Battle for Freedom in Afghanistan. Berkley Hardcover.
  • Luttrell, Marcus; Robinson, Patrick (2007). Lone Survivor: The Eyewitness Account of Operation Redwing and the Lost Heroes of SEAL Team 10. Back Bay Books.
  • Williams, Gary (2010). Seal of Honor: Operation Redwing and the Life of LT. Michael P. Murphy, USN. Naval Institute Press. 
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