4 de Março de 2006 – Entrevista com Jorg Friedrich, autor de “O Incêndio”

Historiador investiga pela primeira vez os crimes contra os alemães no fim da Segunda Guerra

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O best seller Der Brand (O Incêndio), do alemão Jörg Friedrich, causou grande impacto dentro e fora da Alemanha, por descrever pela primeira vez as conseqüências dos bombardeios aliados contra a população civil alemã entre 1940 e 1945.

Após ter investigado os crimes nazistas em diversas publicações (Freispruch für die Nazi-Justiz, 1982; Kalte Amnestie, 1984; Das Gesetz des Krieges, 1993), o historiador militar de 58 anos, que prefere se manter longe de estruturas acadêmicas, descreve minuciosamente -em Der Brand– as armas da guerra aérea, a estratégia militar de alemães e aliados, a destruição das cidades alemãs, a insuficiente infraestrutura de proteção à população, os efeitos físicos e psicológicos das bombas e a perda de patrimônios culturais, Im Krebsgang (Em Passo de Caranguejo, 2002), a publicação de Der Brand, em novembro passado, veio ampliar na Alemanha o debate sobre o surgimento de uma nova memória sobre a Segunda Guerra, capaz de resgatar o sofrimento alemão, sem vinculá-lo à culpa do holocausto. Isso sempre foi um tabu e ainda não deixou de ser. Ao quebrar o silêncio sobre o massacre da população civil na guerra aérea, Friedrich diz não ter feito nada de especial, além de ousar dizer que „o rei está nu“. Ou melhor, que „as mãos do rei estão cheias de sangue“.

A guerra aérea contra as cidade alemãs vitimou cerca de 600 mil pessoas, entre as quais quase 75 mil crianças. Friedrich não se atém aos números, preferindo concretizar e personalizar o inferno dos bombardeios e descrevê-los em cores vivas com auxílio de relatos de sobreviventes. “Ao descrever o Holocausto, também não afirmei que o extermínio dos judeus é um seis com cinco zeros atrás”, justifica Friedrich.

Assim como a última novela de Günter Grass

Na entrevista a seguir, o autor comenta o contexto de seu livro e reage às críticas, enfatizando a atualidade do tema: „O bombardeio de cidades não representa um remédio contra os nazistas, mas sim uma arma da guerra total, existente até hoje, uma arma que não tem absolutamente nada a ver com a Alemanha e com Hitler. (…) Esta forma moderna e industrializada de guerrear não acabou, como se sabe, com o fim da Segunda Guerra, quando Hitler foi derrotado. Esta arma continua existindo até hoje”.
Após o senhor ter investigado os crimes nazistas durante 20 anos, o que o levou a pesquisar sobre a ofensiva militar dos aliados contra as cidades alemãs?

Jörg Friedrich: Eu retomei a pesquisa no ponto em que os historiadores britânicos e americanos a interromperam. Em geral, eles terminam seus livros no instante em que a bomba é lançada do avião; meu livro começa no momento em que a bomba atinge o chão. Trata-se do maior campo de batalha da Segunda Guerra Mundial, compreendendo toda a paisagem urbana alemã e 30 milhões de pessoas que habitavam as cidades. São adversários desprovidos de armas. Até agora o mundo evitou contemplar a imagem deste campo de batalha, embora nunca tenha havido nada semelhante em toda a história da civilização.

Ao assumir a perspectiva terrestre, a perspectiva das vítimas da guerra aérea contra as cidades alemãs, o senhor acaba excluindo do livro o contexto geral da Segunda Guerra Mundial. Esta perspectiva não seria parcial?

Friedrich: O contexto da guerra aérea não é a constelação estratégica da Segunda Guerra, mas sim a guerra total, industrializada. Não a guerra de armados contra armados, mas sim a de armados contra desarmados. Esta forma moderna e industrializada de guerrear não acabou, como se sabe, com o fim da Segunda Guerra, quando Hitler foi derrotado. Esta arma continua existindo até hoje.

O que aconteceu após a Primeira Guerra foi a experiência da industrialização da guerra. Seu resultado não dependia mais da genialidade estratégica dos comandantes, nem da coragem da tropa, mas sim da capacidade nacional de inventar e produzir armas. E o lugar desta invenção é a cidade. No período do entre-guerras, sobretudo nos anos 30, toda a Europa sabia que a próxima guerra seria contra as cidades.

A maioria dos britânicos e alemães tinham máscaras de gás, pois presumia-se que as bombas seriam enchidas com gás, uma suspeita atribuída hoje a Sadam Hussein. As cidades e a população urbana sabiam que seriam alvo militar. E foi justamente isso que aconteceu quando começou a Segunda Guerra.

Os alemães bombardearam Varsóvia e Roterdã, dando respaldo para sua artilharia, e invadiram a Polônia, a Holanda e a França com o exército, acompanhando a invasão com bombardeios. A partir de maio de 1940, os ingleses fizeram o mesmo. Este é o meu contexto.

O bombardeio de cidades não representa um remédio contra os nazistas, mas sim uma arma da guerra total existente até hoje, uma arma que não tem absolutamente nada a ver com a Alemanha e com Hitler. Trata-se de uma arma terrível e diabólica, porque mata a mãe com o recém-nascido nos braços. Uma mãe nazista com um recém-nascido nazista nos braços: esta é a única legitimação que esta arma pode ter. No meu livro, falta justamente o contexto que legitima a arma.

O detalhamento da sua pesquisa impressionou o público leitor na Alemanha, mas alguns críticos o acusaram de uma “expressividade estilística histérica” ou de falta de objetividade em suas descrições…

Friedrich: Um catedrático alemão de história moderna acusou-me disso, remetendo a uma passagem específica do livro. Trata-se do ataque aéreo contra um balneário no Mar Báltico, em Swinemünde, ocorrido em 12/03/1945, oito semanas antes do fim da guerra. Neste lugarejo se encontravam 75 mil pessoas que vinham fugindo das tropas soviéticas ao longo da costa báltica.

Eles queriam chegar ao território onde estavam as potências de ocupação ocidentais. Mas eles nem precisaram ir tão longe, pois os americanos vieram ao seu encontro, saudando-os com mil aviões e mil toneladas e meia de bombas. Para dar um parâmetro, a cidade de Hamburgo, com 1,7 milhões de habitantes, foi destruída em julho de 1943 com duas mil toneladas e meia de bombas; Swinemünde, com 25 mil habitantes, foi bombardeada com uma tonelada e meia. Tudo isso é objetivo.

O bombardeio deixou 20 mil mortos, mais ou menos a metade dos mortos de Nagasaki. O mundo inteiro conhece Nagasaki, mas ninguém nunca ouvir falar de Swinemünde. Isso ainda é objetivo.

Agora vem a falta de objetividade. As mulheres fugitivas, acampadas na cidade, procuraram os poucos soldados que estavam estacionados ali e pediram para ser metralhadas. Elas chegaram descabeladas, com os olhos fumegantes, completamente fora de si. E justificaram seu pedido, contando que tinham sido vítimas de estupros em massa. Por causa da vergonha que sentiam, não queriam mais viver.

Então vem o catedrático de história moderna, num programa de televisão, e me diz: “Mas sr. Friedrich, para que descrever essas mulheres estupradas? O senhor sabe muito bem o sentimento que isso provoca. Primeiro estupradas, depois estraçalhadas pelas bombas e por fim carbonizadas!”

Ao descrever o Holocausto, também não afirmei que o extermínio dos judeus é um seis com cinco zeros atrás.

É impossível ler uma descrição concreta dessas, sem ter um profundo choque emocional. Eu posso descrever como quiser, usando cores vivas ou discretas, quando possível. Mas o leitor entra num estado de histeria, na incapacidade de imaginar que sentido militar, objetivo ou lógico, poderia justificar uma medida dessas, ordenada por justos cavaleiros cristãos, guardiões da democracia, do direito e da justiça. É justamente a discrepância de se cumprir uma missão justa com os meios mais bárbaros possíveis que leva qualquer cabeça ao estado de histeria.

Embora o senhor tenha evitado chamar Churchill explicitamente de criminoso de guerra, a publicação do seu livro causou grande impacto na Grã-Bretanha. O senhor acha que isso pode levar a uma revisão da imagem heróica que os ingleses têm de Churchill?

Friedrich: Um livro nunca vai mudar os ingleses, embora a culpa não seja do livro, e sim dos ingleses (risos). Eles nem leram o livro, pois não sabem alemão, mas os trechos publicados na Bild-Zeitung, o maior jornal de massa da Europa, chegaram até lá. E os ingleses, que só conhecem a guerra aérea até o momento em que o avião lançou as bombas, que sabem muito bem que elas foram lançadas em áreas residenciais, de repente são obrigados a assistir o que se passou em Swinemünde.

Eles avistam os comboios de fugitivos, as mulheres estupradas, o estado dos cadáveres carbonizados, os pacientes de hospitais, os cegos, as vítimas de trabalhos forçados e os prisioneiros de guerra obrigados a trabalhar na indústria alemã. Setenta e oito mil deles morreram estraçalhados por bombas, pois não eram autorizados a se refugiar nos bunkers, estando, portanto, bem mais expostos ao ímpeto dos bombardeios do que a população civil alemã. Eles são obrigados a assistir como a sua própria gente foi massacrada. Daí também ficam histéricos, como o autor e os leitores do livro na Alemanha.

E nesta histeria têm que se perguntar: “Como devo avaliar essa atitude? Com que palavra nomeá-la? Libertação? Punição justa? Retaliação contra a invasão da Polônia por Hitler? Massacre? Uma necessidade militar?”. Para isso eles têm que encontrar uma palavra, principalmente porque se trata de sua própria ação. Eles têm que nomear essa ação. E não conseguem. Eu também não consigo.

Este livro poderia ter sido escrito antes? Ou será que só agora a Alemanha está preparada para continuar a escrever a história da Segunda Guerra sem sentimento de culpa?

Friedrich: Eu poderia ter escrito o livro há 20 anos, mas teria sido um outro livro. Escrevi um capítulo sobre a guerra aérea num livro publicado há duas décadas, mas retratei a situação superficialmente, descrevendo apenas a superfície do solo após os bombardeios.

Na época, escrevi com aquilo de que ainda se sente falta hoje: com a intenção didática, a moral da história. Escrevi que esta era a resposta da civilização, olho por olho, dente por dente. Quem inicia a barbárie é punido com barbárie, Não há por quê se admirar disso. E é bom mesmo que seja pago na mesma moeda.

Tive que envelhecer 20 anos e chegar ao fim dos 50, para entender uma coisa simples: o alvo das represálias, ou seja, velhos, mulheres e crianças que habitavam as cidades não eram responsáveis pela ofensiva militar e pela barbárie. E o culpado, Hitler, que iniciou a guerra e ordenou as atrocidades, o agressor e bárbaro, teve que enfiar um revólver na boca para conseguir morrer. É um raciocínio realmente primitivo. Por que será que precisei de 20 anos para chegar a isso?

Por que o silêncio até agora?

Friedrich: Há razões categóricas para isso. São os vencedores que escrevem a história. Eles não poderiam contar sua história de vitória e justiça, se descrevessem esse campo de batalha. Os alemães também foram torpes -na Polônia e na Rússia, mas também na Sérvia, na Grécia e na Itália- e os seus crimes foram extensivamente abordados no processo de Nuremberg. Mas essa voz se calou assim que a Alemanha se uniu às potências ocidentais contra o antigo aliado delas, Stalin, o verdadeiro vencedor dessa guerra. Era preciso se reconciliar. E os dois lados pararam de falar da torpeza de seus campos de batalha.

Os americanos não mencionaram mais a relação entre o exército alemão e o extermínio de judeus na Rússia. Eles estavam famintos por generais e oficiais alemães da ofensiva contra a Rússia, por especialistas de foguetes balísticos, por Werner von Braun, que desenvolveu o V2, matando 15 mil britânicos e belgas. Mas o maior desempenho do V2 foi entre os trabalhadores escravos judeus que os construíam: 50 mil deles morreram trabalhando na produção deste foguete. Werner von Braun foi o maior espólio de guerra.

Foi com ele que os americanos fizeram o programa Apollo e desenvolveram os mísseis intercontinentais a serem apontados contra a Rússia. Então, deixaram de falar dos 50 mil escravos mortos de trabalhar, preferindo fazer um filme de Hollywood. Os alemães teriam sido idiotas de tocar no assunto da guerra aérea, enquanto o outro lado se calava sobre os trabalhos forçados, o massacre da população russa, o bloqueio de Leningrado. Foi uma anistia recíproca, uma anistia pelo silêncio. Uma necessidade política.

por Simone Homem de Mello

 

 

 

 

 

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