04 de Fevereiro de 2012 – Entrevista com Chris Kyle, o Sniper Americano

Em 10 anos de serviços prestados à Marinha americana, Chris Kyle matou 255 pessoas. Envergonha-se de algumas, admite, mas não se arrepende de nada.

“Gostaria de ter matado mais, mas não pelo ato de matar. Sinto que, a cada pessoa que matava, estava salvando outra vida – ou até mais de uma.” Chris Kyle

A Marinha americana é reconhecida como a maior e mais poderosa do mundo. Seu corpo de fuzileiros navais integra uma das tropas dos Seals – a mesma força de elite responsável pela morte de Osama bin Laden em maio de 2011. Seus integrantes – escolhidos a dedo – têm a missão de proteger a qualquer custo seus aliados em terra e matar os inimigos, especialmente em uma guerra. Mas nenhum deles atira aleatoriamente. Cada disparo que sai de suas armas deve ser preciso, mesmo a uma longa distância. Chris Kyle é um desses homens. Diz ter matado 255 pessoas ao longo dos dez anos (de 1999 a 2009) em que foi chefe do pelotão Charlie, terceiro grupo da força Seal. O Pentágono confirma oficialmente 150 delas. Ambos os números são recorde para um único oficial – até então, o número máximo de vítimas contabilizadas por um atirador de elite era 109, durante a Guerra do Vietnã. Por isso, ele se descreve como “o atirador de elite mais letal da história militar americana” no livro em que conta a própria história, American Sniper (Atirador de elite americano, em tradução livre).

Sem disfarçar o exacerbado nacionalismo, afirma que gostaria de ter matado até mais. “Não pelo ato de matar”, ressalva, mas sim porque acreditava estar salvando vidas inocentes. Ainda pequeno, aprendeu a atirar com o pai para se tornar um grande caçador. Crescido, serviu na Guerra do Iraque, onde era conhecido como “demônio”. Hoje, aos 37 anos, voltou para casa, no Texas, junto da mulher e dos dois filhos, um casal, de 5 e 7 anos. É visto como herói em seu país, onde acumula diversos prêmios por bravura e atualmente é diretor de uma empresa que presta serviços para as Forças Armadas americanas, treinando futuros atiradores de elite. Por telefone, concedeu uma entrevista ao site de VEJA para contar o que sentiu, por exemplo, quando se viu obrigado a matar uma mulher civil, que corria com um pacote nas mãos: “Tenho certa vergonha, mas não me arrependo”, diz, com um forte sotaque texano dando o tom à fala sisuda de quem parece estar sempre pronto a bater continência. Ao mesmo tempo, define-se como uma pessoa amorosa e agradece à família por “ainda estar aqui quando voltei para casa”. Confira a conversa:

O senhor conta que aprendeu a atirar com seu pai, ainda criança. Sempre quis se tornar um atirador de elite profissional? Cresci com a vontade de me tornar um grande caçador. E, desde que entrei para o serviço militar, percebi que me aperfeiçoaria nesse sentido se me tornasse um atirador de elite.

Quando optou por seguir essa carreira, teve o apoio de sua família? Sim, eles sempre estiveram 100% do meu lado. Claro que meus pais ficaram nervosos ao saber que eu poderia acabar em um campo de batalha, mas definitivamente me apoiaram muito.

Como foi participar da Operação Liberdade no Iraque? Foi uma experiência diferente de tudo o que havia feito antes. Pela primeira vez, estava em uma guerra. E, nesse contexto, nunca se sabe o que vai acontecer, pois meu papel ali era matar pessoas. Por outro lado, eu me senti satisfeito com a oportunidade de responder a um chamado do meu país.

No início, o senhor diz que hesitava ao mirar suas vítimas. Como isso mudou?Na primeira vez que tive de matar alguém, eu realmente estava hesitante. Nessa hora, é impossível não pensar que estava tirando a vida de outro ser humano. Mas, toda vez que precisava puxar o gatilho, tentava justificar a mim mesmo que a vítima merecia morrer, pois estava cometendo atos violentos contra os americanos, nossos aliados e até outros iraquianos. Era mais fácil pensar que a morte era justificada.

Usou a mesma justificativa quando precisou matar uma mulher, civil, que segurava nas mãos um objeto semelhante a uma granada? Foi algo que eu realmente preferia não precisar ter feito. Tentei contatar outros militares para que atirassem no meu lugar. Mas, no fim, não tive opção, pois nenhum deles estava disponível, e fui recrutado para a ação. Tenho certa vergonha de ter tido de matar uma mulher civil, mas não me arrependo. Ela teria matado vários americanos se eu não tivesse tirado sua vida antes.

Há alguma morte da qual o senhor se orgulhe? O tiro de que tenho mais orgulho foi o que dei contra um homem que estava atrás de um dos nossos soldados, que não se deu conta da presença dele. No momento em que o matei senti que cumpria exatamente o meu dever: promover a segurança necessária aos americanos, para que pudessem voltar bem a suas casas.

O senhor afirma não se arrepender de ter matado tanta gente. Sente prazer nisso? Não, absolutamente. A única razão que me fez ir para o Iraque e matar pessoas foi a necessidade de proteger outros americanos. Esse era o real objetivo, e as mortes são consequência dele. Por isso, repito que não me importo com o número de mortes que provoquei, mas me orgulho de ter salvado tantos americanos.

É difícil as pessoas conseguirem distinguir um sniper de um assassino? Acho que não. Ser um assassino significa matar pessoas aleatoriamente. Eu nunca matei sem uma razão. Apenas matei aqueles que promoveram algum tipo de violência contra as tropas americanas.

O senhor já chegou a tentar negociar antes de atirar? Não estava no campo de batalha para negociar, mas para promover a segurança dos soldados. Foram os insurgentes que me colocaram naquela posição. Se eles não tivessem cometido tantos atos de violência, eu não precisaria estar lá, nem precisaria matá-los.

Ao contar detalhes de seu trabalho em quatro viagens de combate ao Iraque, o senhor diz que adorou o que fez, achou divertido e voltaria num piscar de olhos se preciso. É um trabalho muito recompensador. Minha função era proteger pessoas, e eu podia ver que estava cumprindo o meu papel. Não fui atrás de guerras ou de matanças. Meu país me chamou, precisei responder a esse chamado. E, já que estávamos em guerra, matar inimigos se transformou em meu maior dever.

Já na capa do livro, o senhor reforça sua reputação de “o atirador de elite mais letal da história americana”. Tem orgulho de ter sido chamado de “demônio” pelos inimigos? Na época, tinha orgulho dessas alcunhas, pois elas me mostravam que minhas ações estavam realmente surtindo efeito na guerra. Sentia que, de fato, estava fazendo diferença e salvando vidas. Mas, olhando para trás, penso que havia outras qualidades para eu ser conhecido.

O senhor chama seus inimigos de “selvagens que tiraram vidas americanas”. Se pudesse, teria matado mais gente? Gostaria de ter matado mais, mas não pelo ato de matar. Sinto que, a cada pessoa que matava, estava salvando outra vida – ou até mais de uma. Enquanto americanos ainda morriam no Iraque (o fim da guerra foi anunciado em dezembro de 2011), pensava que poderia ter feito mais. Mas estou feliz que meu tempo na Marinha tenha chegado ao fim e que essa parte da minha vida tenha ficado para trás.

O senhor se considera uma pessoa fria? É preciso ter frieza para ser corajoso?Não, não. Todos que me conhecem sabem que sou uma pessoa calorosa, amorosa e calma. Apenas fiz um trabalho que era necessário.

O que espera para o futuro do Iraque, com a saída dos soldados americanos?Sinceramente, espero que tudo isso acabe logo. Passamos muitos anos lá, talvez mais tempo do que deveríamos. Fizemos tudo o que podíamos, ao treinar os militares locais e combater os insurgentes. Acho que fizemos um bom trabalho, mas agora o futuro do país está nas mãos do governo local – e cabe a ele levar nossos avanços adiante. Finalmente chegou a hora de nossos soldados voltarem para casa.

Como é retornar depois de tanto tempo longe da família e dos amigos? Eu amo estar em casa hoje, com uma mulher maravilhosa e nossos dois filhos, de quem passei muito tempo distante. Agora posso me tornar o homem que eu deveria ter sido há anos. Cuidar da minha família é minha prioridade número um. Paralelamente, ajudo a formar futuros atiradores de elite. Ensino táticas para que estejam preparados para atuar tanto no dia-a-dia quanto em casos pontuais, como atos terroristas, em solo americano ou no exterior.

O senhor apoiaria seu filho se ele decidisse seguir seus passos? Ele é muito novo para entender o meu trabalho. Sabe que já fui um atirador e que tentava proteger os americanos dos homens maus, mas não conhece os detalhes. Prefiro que seja assim e que, por enquanto, ele viva sua própria vida. Não gostaria de influenciar meu filho quanto a essa decisão, mas se ele decidir seguir o mesmo caminho, vou apoiá-lo.

O que a mulher de Chris Kyle, Taya, diz sobre ele*

“Chris sempre foi muito consciente dos meus sentimentos. Ele costuma ser extremamente observador. Não é preciso dizer muita coisa. Uma simples pergunta – ou sua facilidade para iluminar os fatos – revela que ele está 100% a par dos meus sentimentos. Ele não gosta necessariamente de falar sobre isso, mas sabe quando é apropriado trazer à tona questões que eu pretendia guardar para mim.

Reparei nisso desde o início do nosso relacionamento. Sempre que nos falávamos por telefone ele era muito cuidadoso.

Nós somos, em muitos aspectos, opostos. Mesmo assim, temos certa conexão. Um dia, ao telefone, ele me perguntou o que eu achava que nos fazia compatíveis. Então, decidi contá-lo o que me atraía nele.

– Acho que você é um bom rapaz – eu disse – Muito legal e sensível.

– Sensível?!? – ele retrucou, chocado e aparentemente ofendido – O que você quer dizer com isso?

– Você não sabe o que sensível significa?

– Você quer dizer que eu fico chorando em filmes, essas coisas?

Eu ri. E expliquei que ele entendia exatamente como eu me sentia – às vezes, antes de eu mesma me dar conta. Ele me deixava expressar minhas emoções e, o mais importante, me dava espaço.

Acredito que essa não seja a imagem que a maioria das pessoas tem dos Seals. Mas é a verdade, pelo menos no caso de Chris.”

*Depoimento tirado do capítulo 2 do livro American Sniper

Fonte: VEJA

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