02 de Junho de 2017 – Navy Seal resgata civis mesmo baleado

Novas imagens e narrativas exclusivas do ex-SEAL Ephraim Mattos, da Marinha dos EUA, documentando seu intenso envolvimento com os Free Burma Rangers revelam o árduo trabalho para resgatar civis em encurralados na batalha infernal por Mosul.

Em 2 de junho de 2017, o ex- SEAL da Marinha dos EUA, Ephraim Mattos, foi baleado na panturrilha pelo ISIS enquanto se voluntariava como médico civil na liberação de Mosul Ocidental ao lado da 9a Divisão Blindada do Exército Iraquiano. Ele foi ferido durante uma missão de resgate suicida no território controlado pelo ISIS onde vários civis iraquianos foram presos a uma pilha de cadáveres que o grupo massacrou no dia anterior. O resgate de uma menina iraquiana e o momento em que Mattos foi baleado foram capturados na câmera. Até agora, tínhamos somente trechos fragmentados dessa filmagem.

Mattos faz parte de um grupo Humanitário chamado Free Burma Rangers.
A Free Burma Rangers é uma instituição de caridade cristã multiétnica, auxiliada pelo exército iraquiano e por militares dos EUA que arriscam suas vidas para resgatar civis em situação de vulnerabilidade, em especial causada por ações do ISIS, em Mosul, no Iraque. O FBR atua, originalmente, como um grupo humanitário pró-ativo e pró-democracia, cristão, que trabalha em toda a Birmânia (atual Myanmar), mas se concentra principalmente na região fronteiriça de florestas densas, entregando assistência médica de emergência a doentes e feridos forçados a deslocar-se. Foi um movimento nascido em conseqüência da longa campanha de violência contra as minorias étnicas da Birmânia. A FBR treina equipes de homens e mulheres em tratamento médico de primeira linha e técnicas de reconhecimento. Além de fornecer ajuda humanitária, um papel secundário das equipes é obter evidências de violência militar e abuso dos direitos humanos. Essas informações são publicadas na forma de relatórios on-line e divulgadas para grupos internacionais de direitos humanos, organizações intergovernamentais, como a ONU, e agências de notícias.

Resultado de imagem para Free Burma Rangers
Um dos líderes, o Pastor Simund, realiza uma oração durante a cerimônia de graduação de novos membros, em Karen State, Myanmar.

A FBR é uma das várias organizações de base que emergiram em resposta às crescentes necessidades de saúde de grupos étnicos perseguidos da Birmânia. As FBR não são apoiadas nem pelas autoridades tailandesas nem birmanesas e a sua atividade dentro da fronteira birmanesa é clandestina. Hoje, a instituição encontra-se atuante em vários focos de conflito pelo mundo, incluindo a Síria, Iraque e Níger.

Mattos escreveu um livro sobre sua experiência, juntamente com o co-autor de “AMERICAN SNIPER” (livro que conta a história de Chris Kyle), Scott McEwen. O novo livro de Mattos e McEwen chama-se CIDADE DA MORTE: GUERREIROS HUMANITÁRIOS NA BATALHA DE MOSUL, porém, sem tradução para o Português. Nas primeiras horas da manhã de 2 de junho de 2017, Mattos estava trabalhando ao lado do grupo humanitário Free Burma Rangers – que foi descrito como “Médicos sem fronteiras, com metralhadoras” – quando ele e o resto da equipe descobriram o local de um Massacre do ISIS.


CITY OF DEATH, Humanitarian Warriors in the Battle of Mosul de Ephraim Mattos

Além do ex-franco-atirador Navy SEAL, a equipe do Free Burma Rangers também incluía o ex-US Marine Sky Barkley e era liderada pelas ex-forças especiais do exército dos EUA e pelo Ranger David Eubank – o fundador do Free Burma Rangers. A equipe do FBR realizou um reconhecimento do local do massacre e rapidamente descobriu vários civis iraquianos ainda vivos nas pilhas de cadáveres espalhados. Contaram dois homens feridos e quatro crianças presas à beira da morte. Apesar das probabilidades negativas, a equipe decidiu que não tinha escolha a não ser fazer uma tentativa de resgate. Horas depois, o exército iraquiano finalmente concordou em enviar à equipe de voluntários civis um tanque Abrams do exército iraquiano. Esse atraso resultou na morte de três das quatro crianças, que sucumbiram ao calor escaldante do deserto antes que a equipe pudesse lançar sua missão.

Os comandantes militares dos EUA – agora cientes do massacre – concordaram em disparar uma cortina de fumaça de artilharia para cobrir a equipe e seu avanço em território do ISIS. Com a cortina de fumaça americana chovendo na frente deles, Mattos, Barkley, Eubank, Mahmoud (intérprete sírio) e “Monkey” (um cinegrafista da Birmânia encarregado de documentar violações de direitos humanos) correram atrás de um único tanque Abrams direto para o ISIS em uma tentativa desesperada de resgatar os três civis ainda vivos. Os combatentes do ISIS nos prédios vizinhos vislumbraram a equipe através da fumaça e imediatamente abriram fogo com armas automáticas e morteiros. Ao atingir o objetivo, Mattos e Barkley deitaram cobrindo o fogo diretamente nas posições do ISIS enquanto Eubank corria para recuperar a única criança sobrevivente – uma garotinha.

Mattos, Barkley e Eubank correram juntos para recuperar dois iraquianos feridos. A equipe começou a voltar para as fileiras do exército iraquiano com os três feridos enquanto o tanque do exército iraquiano recuava cegamente em direção a eles. Enquanto voltava para as linhas aliadas, um dos iraquianos gravemente ferido caiu de uma maca improvisada que a equipe estava usando. O tanque de marcha-ré às cegas quase esmagou a equipe ao não parar deixando os homens aflitos.

Momentos depois, enquanto um cinegrafista filmava a partir de um prédio em ruína, Mattos foi baleado na panturrilha direita, jogando-o imediatamente ao chão. Ele também foi quase esmagado pelo tanque em marcha à ré, mas sua equipe gritou para ele se levantar. Mattos continuou a recuar com sua equipe enquanto tentava aplicar um torniquete na perna direita, mas não conseguiu apertá-lo em movimento.

Ao chegar perto das linhas do exército iraquiano, a equipe percebeu que seria atingida caso tentassem mover os feridos pelo último trecho de campo aberto. A equipe gritou sob fogo e com os ‘berros’ do motor do blindado para que o Exército Iraquiano enviasse um veículo de extração. Mas ninguém podia ouvi-los. Perdendo sangue rapidamente e sabendo que sua equipe morreria se não houvesse um resgate motorizado, Mattos se ofereceu para correr pelo campo aberto e transmitir a mensagem de que a equipe precisava de um Humvee.

Ferido, Mattos correu pelo campo aberto, enquanto atiradores do ISIS abriam fogo. Ele chegou às fileiras do exército iraquiano e transmitiu a mensagem de que a equipe precisava de um veículo blindado. Bernard Genier, jornalista francês que acabara de aprender a dirigir no dia anterior, pulou em um veículo blindado e dirigiu-se para a rua a fim de resgatar o resto da equipe. A equipe do Free Burma Rangers resgatou com sucesso um iraquiano e uma garotinha, batizada como Demoa. “Demoa” significa lágrima em árabe. Ephraim Mattos se uniu a Scott McEwen (co-autor do SNIPER AMERICANO), para escrever sobre sua jornada como parte de um equipe SEAL na linha de frente contra o ISIS e também como voluntário civil do FBR. Livro, em tradução literal, ficou intitulado como “CIDADE DA MORTE: GUERREIROS HUMANITÁRIOS NA BATALHA DE MOSUL”, porém sem versão em Português.

free burma rangers
Mattos dando cobertura para Barkley com a garotinha, “Demoa”, no colo.

Por Bruno Güiguer

Comments are closed.