05 de Julho de 1943 à 23 de Agosto de 1943 – A Batalha de Kursk

Batalha de Kursk foi uma batalha significativa da Segunda Guerra Mundial entre as forças alemãs e soviéticas na Frente Oriental perto de Kursk (450 quilômetros ou 280 milhas a sudoeste de Moscou) na União Soviética durante julho e agosto 1943. A ofensiva alemã teve o nome de código Operação Cidadela (alemão: Unternehmen Zitadelle) e levou a um dos maiores confrontos blindados da história, a batalha de Prokhorovka. Mantém-se, até hoje, como a maior batalha de blindados de todos tempos, e inclui o maior custo de perdas aéreas em um só dia na história da guerra. Embora os Alemães tivessem planejado e iniciado uma ofensiva, a defesa Soviética conseguiu com sucesso lançar uma contra-ofensiva e parar as suas ambições.

Data: 5 de Julho de 1943 – 23 de Julho de 1943
Local: Kursk, União Soviética
Desfecho: Decisiva vitória Soviética. Fim das ofensivas alemãs na Frente Oriental.
Beligerantes
União Soviética Flag of the German Reich (1935–1945).svg Alemanha Nazista
Comandantes
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Georgy Jukov
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Nikolai Vatutin(Frente Voronej)
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Konstantin Rokossovsky (Frente Central)
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas Ivan Koniev (Frente Steppe)
Flag of the German Reich (1935–1945).svg Erich von Manstein
Flag of the German Reich (1935–1945).svg Kurt Zeitzler
Flag of the German Reich (1935–1945).svg Hermann Hoth
Flag of the German Reich (1935–1945).svg Walther Model
Forças
Operação Cidadela:
1 910 361 homens
5 128 tanques
25 013 armas pesadas e morteiros
Contra-ofensiva soviética:
2 500 000 homens
7 360 tanques
47 416 armas pesadas e morteiros
2 792 – 3 549 aeronaves
Operação Cidadela:
780 900 homens
2 928 tanques
9 966 armas pesadas e morteiros
Contra-ofensiva soviética:
940 900 homens
3 253 tanques
9 467 armas pesadas e morteiros
2 110 aeronaves
Baixas
Operação Cidadela:
177 847 mortos, 300 000 feridos, cerca de 1 614 — 1 956 tanques destruídos e 459 aviões perdidos
Batalha de Kursk:
863 000 mortos, feridos, desaparecidos ou capturados
6 064 armas pesadas e tanque destruídos ou seriamente avariados
1 626 – 1 961 aeronaves perdidas
5 244 canhões perdidos
Operação Cidadela:
54 182 mortos, 150 000 feridos, cerca de 323 tanques destruídos
159 aeronaves perdidas
Batalha de Kursk:
198 000 mortos, feridos ou desaparecidos
760 armas pesadas e tanque destruídos
681 aeronaves perdidas

FOTOS

HISTÓRIA

 

Situação geral e preparação: A situação na frente oriental após o grande avanço russo de inverno e os preparativos para a maior batalha blindada da história.

 

No segundo trimestre de 1943, surgira uma situação em que tanto a Alemanha, quanto a URSS faziam preparativos para o duplo objetivo de montar sua própria ofensiva e enfrentar o ataque que o inimigo preparava. Ambos os lados empreendiam ativas operações locais a fim de experimentar as posições inimigas e melhorar seus próprios pontos de apoio, na perspectiva de ataques maiores. Foram repelidos ataques alemães ao longo do rio Donetz. Uma arremetida alemã sobre o rio Mius foi repelida por um contra-ataque russo que atravessou o rio e conquistou um ponto de apoio na margem ocidental. No começo de junho registraram-se combates indecisos em torno da cidade de Velizh. Em meados de junho houve encarniçada luta, que durou vários dias, no vértice do saliente de Orel, onde um ataque russo lançou uma cunha nas linhas alemãs diante de Mtensk, mantendo as posições conquistadas, a despeito dos violentos contra-ataques alemães. Mas nenhuma dessas pequenas ofensivas mostrou sinais de se transformar em uma grande operação; e quando o fim da primavera trouxe consigo condições favoráveis para uma campanha e depois de semanas sem um ataque de vulto, era claro que os alemães por fim se encontravam em um sério dilema quanto à estratégia a ser empregada em uma situação que lhes era cada vez mais desvantajosa.

Diante do crescente poderio militar da União Soviética, desvanecera-se completamente a ilusão alemã de que esse inimigo pudesse ser esmagado. A tarefa real era agora manter-se firme contra novos golpes desferidos no Oriente e reunir a força necessária para enfrentar os aliados que se concentravam no ocidente. Não obstante, conquanto uma atitude puramente defensiva pudesse ser teoricamente possível, acarretava uma séria desvantagem prática. Permitir que os russos conquistassem incontestavelmente a iniciativa viria a aumentar enormemenmte o perigo na frente oriental, isso para não se referir ao abalo que tal atitude causaria ao moral do povo alemão e dos países aliados. Um esforço preventivo para lançar os russos fora de ação seria, no mínimo, uma parte essencial da estratégia defensiva. Noticiou-se que Hitler exigia ainda uma ofensiva em grande escala, o que dificilmente conduziria a outra coisa que não o desastre. Bock e outros generais se opunham a esse ponto de vista e advogavam uma ofensiva limitada que conservasse a iniciativa em mãos alemães, mas que não levasse a qualquer decisão estratégica. Além dessa dissenções, havia o problema do potencial humano para uma operação em grande escala – a mobilização geral, instaurada em janeiro de 1943, ajudou a compensar, numericamente, as baixas alemãs dos anos anteriores, elevando para 10.300.000 homens os efetivos disponíveis, menos somente 240.000 homens, comparado ao ano anterior.

Operação Cidadela

Manstein, comandante do Grupo de Exércitos Sul, sentia que a capacidade da Alemanha tornava-se cada vez mais limitada e que as ofensivas na escala das realizadas em 1941-42 não eram mais possíveis. Uma defensiva estratégica tornara-se agora inevitável para a Alemanha, mas dentro dessa defensiva ele julgava possível desgastar os efetivos soviéticos mediante poderosos ataques locais, destinados, em particular, a fazer grande número de prisioneiros. Para ele, Stalin, uma vez pronto, não iria esperar que os aliados ocidentais desembarcassem na Europa para lançar uma grande ofensiva, para não correr o risco de permitir que o vencessem em uma corrida até os Balcãs. Portanto, ponderou Manstein, ele atacaria o Grupo de Exércitos Sul, para cortar o “bolsão do Donetz”, visando a penetrar até a área de Kharkov, ou, através do médio Donetz, descer por trás da frente alemã, para, atacando pela ala sul da Wehrmacht, na costa do Mar Negro, eliminar seu grupo de exércitos, deixando o Grupo de Exércitos A isolado na cabeça-de-ponte de Kuban, o que lhe permitiria recuperar a área industrial da bacia do Donetz, os trigais da Ucrânia e abrir caminho pára os Balcãs, ameaçando importante fonte de produção de petróleo da Europa dominada pelo Eixo – os campos romenos de Ploesti.

Havendo decidido quanto ao provável local da ofensiva soviética, Manstein tinha duas opções à disposição: atacar o Exército Vermelho antes que esse aprontasse sua ofensiva, ou esperar pelo golpe, recuar, desgastar as forças de assalto soviéticas e, então, contra-atacar. Manstein rotulou as duas ações de “Ação de Vanguarda” e “Ação de Retaguarda”, admitindo preferência pela segunda, que funcionara tão bem nos meses posteriores à queda de Stalingrado.

Entretanto a Alemanha era quase obrigada a desferir um ataque de natureza gigantesca. Era esse o último verão em que o continente europeu se manteria livre de forças aliadas, e isso significava sua última chance para concentrar todo o peso de sua força militar no leste, numa operação destinada, senão a esmagar a rússia, pelo menos a reduzir-lhe grandemente o poderio. Todos os indícios indicavam a preparação de uma ofensiva de porte. Churchill asseverou que havia 190 divisões alemãs e 28 dos países satélites na Rússia, no começo do verão. Outras avaliações do total da força do Eixo durante o mês de julho variavam de 200 a 230 divisões. Destas, aproximadamente 100 estavam concentradas no setor que cobria Smolensk, Briansk e Orel, enquanto o grosso de outras 50 divisões no setor sul encontravam-se nas vizinhanças de Kharkov.

No começo de abril de 1943, o Chefe do Estado-Maior do OKH, o Coronel-General Zeitzler, convocou Manstein para debaterem a questão da ofensiva de primavera (março-abril). A proposta de Manstein foi rejeitada, devido à cessão inicial de terreno que a mesma envolveria e por causa do sacrifício de reservas que a ofensiva provavelmente exigiria. Após a conferência, Zeitzler enviou um memorando a Hitler, sugerindo que o 9º Exército, do Coronel-General Model, do Grupo de Exércitos Centro, deveria atacar o bolsão de Kursk pelo norte, em conjunto com o 4º Exército Panzer, do General Hoth, do Grupo de Exércitos Sul. Zeitzler sugeriu que de 10 a 12 divisões Panzer, com infantaria de apoio seriam suficientes para romper o bolsão, mas Hitler achava pequena a quantidade de forças prevista por ele. Com a recente nomeação de Guderian para o cargo de Inspetor-Geral das tropas blindadas, Hitler ficara, diante da exposição que o General lhe fizera, cônscio das deficiências e fraquezas da arma Panzer e passara a crer que somente uma infusão maciça de novos tanques poderia lhe garantir o sucesso. Em particular ele relutava em prosseguir até que o novo Pzkw VI (Tigre) estivesse disponível em quantidade, pois quando Zeitzler observou que a recaptura de Kharkov por Manstein fora feita com apenas 5 divisões Panzer, o Führer replicou que foi o uso dos Tigres, “pois apenas um batalhão deles vale uma divisão Panzer comum”, que possibilitou a vitória. Hitler também queria usar o novo tanque médio, Pantera. Mas a produção do Pantera (Pzkw V), em virtude de dificuldades mecânicas, caminhava tropegamente, e tanto ele quanto o Tigre estavam deixando as fábricas muito lentamente, cerca de 50 Panteras e 25 Tigres por mês (a título de comparação, neste mesmo período, a produção dos T-34 soviéticos chegava à cifra de 1.000 tanques mensais e continuava aumentando).

Blindados alemães se movimentando pela União Soviética.

A 15 de abril foi lançada a “Ordem de operações nº 6”, que previa o esmagamento do bolsão soviético. Contudo, a omissão de uma data para o início do ataque tornava a ordem de operações de pouco valor prático para os Comandantes de Grupos de Exércitos. Mas como orientação geral, era útil e significava que a ofensiva de verão de 1943 tinha de esperar pelo apronto dos tanques Tigre e Pantera e pelos canhões de assalto denominados Ferdinando.

A ignorância dos alemães sobre o que ocorria no lado soviético era quase completa. Se soubessem da rapidez com que os efetivos soviéticos vinham aumentando na pimeira metade de 1943 e o ritmo de preparação para as ações defensivas que se seguiriam, teriam encontrado razões para rever todo o planejamento feito.

 

Os preparativos do Exército Vermelho

 

Depois que as pequenas ofensivas de Manstein acabaram na lama e na neve semiderretida do degelo, uma calma inquietante abateu-se sobre a linha de frente, enquanto Zhukov e os comandantes diretamente a ele subordinados examinavam a situação. Uma olhada, ainda que superficial, no mapa da linha de frente mostrava que o bolsão de Kursk seria provavelmente o objetivo de nova ofensiva alemã. Na verdade, porém, o Alto Comando soviético não precisava recorrer ao trabalho de descobrir o propósito dos alemães, por mais bem feito que esse trabalho pudesse ser. Não precisava porque sabia qual era, porque o conhecia. E porque o Alto Comando soviético sabia o que pretendiam os alemães, os cálculos de Manstein sobre as intenções dos russos estavam errados. Na verdade, estes haviam começado a planejar uma ofensiva, mas quando souberam dos preparativos dos alemães, deixaram de lado a ofensiva que planejavam para romper o bolsão do Donets e se concentraram na elaboração do esquema para enfrentar a ofensiva de Manstein contra o bolsão de Kursk, fato de que tomaram conhecimento graças ao “Círculo de Lucy” – “Lucy” era o codinome de Rudolph Rössler, um alemão, antinazista e agente soviético, residente na Suiça, que servira ao exército germânico na Primeira Guerra Mundial e possuía vasta rede de contatos com altos postos da Wehrmacht.

Saber o que o inimigo pretende é sem dúvida importante, mas não assegura o sucesso na tarefa de frustrá-lo. Dentro de um grande Serviço de Inteligência, sempre haverá quem duvide da veracidade dalgumas informações, ainda que a fonte se tenha mostrado segura anteriormente. Alguns dirão que o acerto de um ou outro informe é mero esforço no sentido de preparar a aplicação, no momento oportuno, de uma desastrosa mentira. Mesmo que o relatório seja verdadeiro, ainda assim pode acontecer que não existam meios de aplicação de plano contrário. Apesar disso, porém, a situação era nitidamente mais favorável ao Exército Vermelho do que em qualquer momento anterior. As informações dadas por “Lucy” haviam ajudado os russos a derrotar os alemães em Moscou e Stalingrado, assim como ajudara a Frente Sudoeste, do Marechal Timoshenko, a escapar ao cerco após a quase catastrófica tentativa que realizou para recapturar Kharkov, na primavera de 1942. 

Sapadores russos cavam um bunker
Por mais ardilosos que os alemães pudessem ser, era muito improvável que estivessem dispostos a criar para si próprios desastres de tal grandeza e assim, muito antes do início da “Operaçao Cidadela”, o Alto Comando soviético passara a aceitar “Lucy” como fonte digna de crédito. Tanta confiança depositavam Stalin e seus generais em “Lucy” que durante o período de degelo, Zhukov, Vasilevsky e os comandantes das Frentes organizaram um reconhecimento intensivo da linha de frente alemã, confrontaram os resultados obtidos com os relatórios enviados por “Lucy” sobre as intenções dos alemães e, com base no confronto feito, levantaram uma avaliação preliminar do plano alemão.Rokossovsky e Vatutin concordaram em que o bolsão de Kursk seria o lugar do principal esforço alemão em 1943, embora divergissem em alguns detalhes da avaliação, porquanto Rokossovsky admitia que o foco principal das operações subseqüentes seria no sul, ao passo que Vatutin acreditava na possibilidade de um ataque a Moscou, caso o assalto ao bolsão fosse bem sucedido, embora julgasse mais provável um avanço para o sul. Vatutin também achava que os alemães poderiam atacar a qualquer momento, depois de 20 de abril, enquanto Rokossovsky julgava que só na segunda quinzena de maio lhes seria possível o desencadeamento de ataques. Esse desencontro de opiniões tinha por base o degelo, que termina mais cedo no sul. Mas a diferença de real importância entre os dois comandantes de Frente era quanto à maneira de reagir à esperada ofensiva alemã. Rokossovsky advogava um grande esforço para quebrar de saída o inimigo, enquanto que Vatutin optava por uma batalha travada defensivamente.

Para isso também concorria a diferença de situação das respectivas Frentes. A concentração de forças diante de Vatutin estava mais adiantada do que no norte, porquanto as divisões blindadas, em especial, haviam terminado ali a sua ofensiva de março, enquanto que o Grupo de Exércitos Centro não tinha realizado ofensiva alguma. Logo, a força de Model, à qual cabia Rokossovsky enfrentar, encontrava-se em processo de concentração, concentração que se fazia lentamente em virtude do vagaroso degelo. Pelos cálculos de Rokossovsky em menos de cinco semanas Model não teria devidamente concentradas as forças com que iria para o combate, o que não sucedia com a tropa que Vatutin teria pela frente, que em menos de três semanas estaria pronta. Não obstante, tendo em mente que Hitler ainda não dera a ordem para o início da “Cidadela” as avaliações feitas pelos dois comandantes de Frente soviéticos eram um tributo às suas fontes de informações e ao seu trabalho de Estado-Maior.

Tanques Pzkw IV, de Model, se concentram para a batalha

Não há provas de que qualquer dos importantes dirigentes alemães na realidade pensasse numa ofensiva contra Moscou logo após a captura do bolsão de Kursk. Os recursos alemães estavam muito forçados para se pensar em ato tão ambicioso assim, embora, caso a ofensiva tivesse êxito, não fosse de todo impossivel que um ataque a Moscou ocorresse em seguida. Quanto à isto, Zhukov e o Estado-Maior-Geral soviético, mesmo superestimando os recursos alemães, estavam sempre muito preocupados com a segurança da capital, fato que se pode deduzir do exame de todo o planejamento feito pelo Stavka, o que fizera que ele demorasse a reforçar sua Frente Sul, porque isto implicava o deslocamento de exércitos de posições de reforço dos flancos de Moscou.

Agora, contudo, a preocupação com a segurança de Moscou não fazia tanto sentido, frente à reduzida potencialidade da Alemanha, diante do que o Stavka logo se desfez dela, demorando Stalin bem mais a fazê-lo.

A balança do potencial humano pendera decisivamente em favor do Exército Vermelho, pois o território soviético liberado durante a campanha de inverno rendera-lhe dividendos substanciais na forma de homens em idade militar. Embora as forças soviéticas e do Eixo envolvidas na campanha de Stalingrado tivessem sido de tamanho aproximadamente igual – cerca de um milhão de homens de cada lado – na campanha de Kursk o potencial humano do Exército Vermelho superaria o dos alemães na proporção de aproximadamente 3:2, as forças alemãs totalizando 900.000 homens, dos quais 570.000 lotados em divisões de combate, as soviéticas chegando a mais ou menos 1.340.000 homens, 970.000 deles nas divisões de combate. A capacidade do exército alemão ainda era formidável, mas após Moscou e Stalingrado ele perdera a reputação e a aura de invencibilidade, tornando-se a sua fraqueza cada vez mais evidente a seus próprios olhos e aos de seu adversário.

Por volta de 21 de abril (quando os russos talvez já tivessem recebido cópias da “Ordem de Operações Número Seis”, de Hitler), o Comando da Frente Voronezh (General-de-Exército Vatutin, N. S. Krushev e o General-de-Divisão Korzhenevich) sugeriu ao Stavka que montasse grandes operações aéreas contra os aeródromos alemães, para destruir no chão os seus aviões, porque neles e nos tanques baseavam os germânicos suas possibilidades, e que, depois de terem eles “partido os dentes” nas defesas previamente preparadas, o Exército Vermelho desencadeasse uma forte contra-ofensiva. Os russos definiram da seguinte maneira os principais objetivos das ofensivas de verão: “atacar as forças armadas inimigas na Ucrânia, varrê-las, ali, por completo da margem esquerda, ou seja, do leste, do Dnieper e estabelecer uma grande cabeça-de-ponte na margem direita do Dnieper, estender uma linha Kremenchug-Krivoy, Rog-Kherson , ou, se as condições o favorecessem, uma linha Cherkassy- Nikolayev.. o que privará o inimigo de uma fonte muito rica de suprimentos e de grandes áreas de produção, como o Donbass, Krivoy Rog, Kharkov e Dneproptrovsk. Ela porá fora de combate a parte mais ativa do exército alemão e nos aproximará mais dos aliados balcânicos da Alemanha. Isto apressaria sua retirada da guerra…”

Soldados soviéticos treinam para ações defensivas

O Comando da Frente Central (General-de-Exército Rokossovsky, General-de-Divisão Telegin, e General-de-Brigada Malinin), que defendia o lado norte do bolsão, mudara sua opinião e agora era favorável a uma batalha defensiva antes de iniciar a arremetida de verão do Exército Vermelho, e propunha que dois ou três exércitos da reserva do Q-G-Geral fossem concentrados a leste do bolsão.

O plano para a defesa do bolsão previa a concentração de enormes corpos de tropas dentro e atrás do bolsão. A Frente Central tinha na primeira linha cinco exércitos de infantaria (13º, 48º, 60º, 65º e 70º), um exército de tanques (2º) e um exército aéreo (16º), com um corpo de cavalaria, dois corpos de tanques e várias unidades de destruidores de tanques na reserva, dando a Rokossovsky uma superioridade de 2:1 em artilharia (5.000 peças contra 2.395), e 7:6 em tanques (1.120 contra 960) no eixo principal do ataque do exército de Model. A Frente Voronezh era igualmente constituída de cinco exércitos de infantaria (38º, 40º, 69º, 6º de Guardas e 7º de Guardas), um exército de tanques (1º) e um exército aéreo (2º), com um corpo de fuzileiros e um corpo de tanques na reserva. Vatutin dispunha, em seu principal setor defensivo, de 5.780 canhões e morteiros, ao passo que Manstein tinha apenas 2.500, e com 1.304 tanques ou canhões autopropulsados, estava um pouco aquém da paridade com Grupo de Exércitos Sul, que alinhava cerca de 1.500. Atrás das forças de Vatutin estava a Frente de Reserva (mais tarde rebatizada de “Estepe”) (Coronel-General I. S. Koniev), com quatro exércitos de infantaria (27º, 47º, 53º e 5º de Guardas), um de tanques (5º de Tanques dos Guardas) e um exército aéreo (5º), com três corpos de cavalaria, dois de tanques e um mecanizado colocados na reserva da frente. Era costume entre os soviéticos reter a maior parte da artilharia na Reserva do Q-G-Geral, para ser distribuída segundo a necessidade, medida que o Stavka considerava importante para enfrentar vigorosamente as divisões Panzer. Assim, no bolsão, os russos, em termos de artilharia, estavam em vantagem na proporção de 3:2. Ao ser a artilharia do 13º Exército reforçada pelo 4º Corpo de Artilharia de Penetração, que contava mais de 700 canhões e morteiros, passaram eles a dispor de 147 canhões de calibre de 3 pol. ou mais para cada 1.600 m de frente, 50 por cento mais que os alemães.

Von Kluge, comandante alemão do setor norte do bolsão

Ao todo, a artilharia das Frentes Voronezh e Central, reforçada por 92 regimentos de artilharia da Reserva do Q-G-Gera1, totalizava 19.300 canhões, mais 920 dos devastadoramente eficazes morteiros-foguetes, que os soldados soviéticos chamavam de Katyusha e os alemães, de “órgão de Stalin”. As divisões blindadas das duas Frentes possuiam, além disso, 3.306 tanques e canhões de assalto aptos para combate, para reforçar sua artilhana durante a batalha defensiva.

Em vista da importância que Zhukov e seus subordinados esperavam, acertadamente, que os alemães dessem ao uso compacto de blindados, todo o sistema defensivo soviético se baseava em pontos-fortes antitanques e campos minados. Cada ponto-forte continha de três a cinco canhões, até cinco fuzis antitanques, de dois a cinco morteiros, uma seção de um pelotão de sapadores e
uma seção de fuzis-metralhadoras, enquanto que, nas áreas mais vulneráveis, havia pontos-fortes com até 12 canhões cada um.

O sistema era forte não só frontalmente, como também em profundidade. No bolsão propriamente dito, a área defensiva tinha cerca de 176 km da frente até a retaguarda, consistindo de seis cinturões, um atrás do outro, enquanto que, atrás destes, havia um sistema defensivo guarnecido pela Frente Estepe, em cuja retaguarda se estendia outra linha defensiva ao longo da margem leste do rio Don. Na frente dos cinturões de pontos-fortes e, também, entre eles havia campos minados, tendo em média 2.400 minas antitanques e 2.700 minas antipessoal, densidade seis vezes maior que a usada em Moscou e quatro vezes a de Stalingrado. A parte os fossos antitanques, mais de 5.000 km de trincheiras foram cavados na área da Frente Central, o mesmo sucedendo no setor da Frente Voronezh. Embora em grande parte esse trabalho fosse executado pelos soldados, a população civil da região muito colaborou com eles. Por volta de abril de 1943, cerca de 105.000 civis da área de Kursk estavam trabalhando, número que em junho subira a 300.000. Para facilitar o acesso de suprimentos à Frente Voronezh, construiu-se nova ferrovia de Stary Oskol a Rzhava, ao tempo que mais de 250 pontes e 290 km de estradas e trilhas foram reparados, também usando, na maior parte, mão-de-obra civil.

 

A batalha na ala norte: O desenrolar da batalha ocorrida na ala norte do bolsão, com as investidas de Model contra a muralha defensiva de Rokossovsky.

 

Mapa de operações das forças de Model

A 2 de julho de 1943, Manstein foi chamado ao Q-G do Führer em Rastenburg, onde, ao chegar, encontrou um grande número de generais já reunidos, inclusive Kluge. Hitler convidara os generais à “casa de chá”, recebeu-os afetuosamente e anunciou que decidira desfechar a “Cidadela” a 5 de julho. A reação dos generais não foi nada entusiástica, além de ambígua, não porque seus preparativos estivessem incompletos, mas porque alguns deles consideravam que se haviam registrado atrasos grandes demais. Predominava entre eles a sensação de que os russos sabiam o que esperar e não deixaram de tomar providências para fazer frente à situação, além da desconfiança de que Eisenhower estaria desembarcando em breve na Itália, com tudo o que isso pressagiava para os efetivos de que dispunham.

A parte norte da pinça, formada pelo 9º Exército do Grupo de Exércitos Centro, atacaria do sul de Orel com três corpos blindados rumando para sudeste, na direção de Kursk, de modo a juntar-se às forças do Grupo de Exércitos Sul nas elevações situadas a leste da cidade. A parte sul da pinça, o 4º Exército Panzer, atacaria do norte de Kharkov na direção de Kursk, com dois corpos blindados penetraria as posições defensivas da Frente Voronezh, no setor defendido pelo 6º Exército de Guardas, e se juntaria então ao 9º Exército e começaria o processo de desgaste das forças soviéticas cercadas. O Destacamento de Exército “Kempf” protegeria o flanco leste do 4º Panzer e atacaria a ala esquerda da Frente Voronezh. Era uma repetição do sistema aplicado em Minsk, Uman e Kiev, a despeito do equilíbrio estratégico encontrar-se completamente alterado. Toda a imaginativa que caracterizara as operações alemães realizadas em 1939-41 desaparecera e a natureza mecânica do planejamento de Hitler era claramente visível. Somente a crença de que uma força tão grande como aquela que ali se concentrava não poderia falhar é que sustentava os generais; e vários deles não acreditavam nem mesmo nisso, pois sabiam que o Exército Vermelho de 43 não era o mesmo de 41 e muitos haviam observado, apreensivos, o aumento sempre crescente de tropas soviéticas no bolsão. Eles haviam tentado sufocar a sensação de que os russos sabiam o que viria argumentando – como fizeram Kluge e Manstein – que as forças soviéticas estavam ali para desfechar uma ofensiva, que só poderia ser desbaratada com a “Cidadela”. Mas este argumento poderia ser contestado com um simples exame das aerofotografias, pois é evidente que nenhum exército que se preparasse para uma ofensiva iminente passaria três meses entrincheirando-se em posições defensivas com mais de 160Km de profundidade.

Bateria de canhões alemães dispara, no começo da ofensiva

Os líderes do Exército Vermelho tampouco estavam isentos de apreensões, pois embora estivessem em vantagem quanto ao volume de tropas e em poder de fogo; embora estivessem plenamente informados, pelo Serviço de Inteligência e por trabalhos de reconhecimento, da maioria dos aspectos do plano alemão, e embora acreditassem ter calculado corretamente os setores contra os quais as principais ofensivas alemãs seriam desfechadas e se tivessem preparado para contê-las, sempre havia a possibilidade de algo sair errado. Contudo, eles confiavam em que seu sistema defensivo seria extremamente difícil de penetrar. Em 2 de julho, no mesmo dia em que Hitler disse aos comandantes do dos grupos de exércitos que a data para a Cidadela seria o dia 5, o Stavka avisou a seus comandantes de frente que os alemães atacariam nos próximos dias, entre 3 e 6 de julho.

Às 3:20 do dia 5 de julho, dez minutos antes da hora marcada para o início do bombardeio de barragem da artilharia alemã, todo o posto de comando tremeu ao estrondear a artilharia pesada e os morteiros-foguetes, dando inicio ao contrabombardeio soviético. Os canhões de Rokossovsky martelaram os alemães por uns 30 minutos, dando combate a cerca de 100 baterias da artilharia alemã, silenciando metade delas temporariamente. A infantaria alemã ficou confusa e somente às 4:30 é que a barragem germânica começou, a princípio fraca e desorganizada, aumentando, porém, o volume de fogo à medida que as baterias danificadas pelo bombardeio soviético iam sendo reparadas e postas a funcionar. Ao mesmo tempo, cerca de 300 surtidas foram feitas pelos bombardeios contra o 13º Exército. Não obstante, devido à desorganização causada pelo bombardeio soviético à rede de postos de observação e comando, não foram grandes as perdas do Exército Vermelho, pois seus canhões já haviam sido camuflados e dispersados.

Às 5:30, os tanques germânicos, apoiados por infantaria motorizada, partiram contra as posições da Frente Central, em particular contra o 13º, o 48º e o 70º Exércitos, introduzindo numa frente de 45Km cinco divisões de infantaria (6ª, 78ª, 86ª, 216ª e 292ª) e três divisões de tanques (9ª, 18ª e 20ª). Este ataque era, entretanto, destinado apenas a desviar a atenção de Rokossovsky do golpe principal, a ser vibrado pelo 9º Exército. OS primeiros ataques alemães foram montados por dois grupos de tanques, tendo cada um deles de 30 a 50 carros, com apoio de infantaria, sendo recebidos por forte barragem de artilharia, a curta distância, retornando ao ponto de partida.

Infantes avançam sob proteção de um canhão de assalto

Às 07:30, outro ataque foi dirigido contra o flanco esquerdo do 13º Exército. Neste, o bombardeio de artilharia durou uma hora, e às 08:30 a principal força de infantaria alemã, com tanques Tigre e canhões autopropulsados Ferdinando, lançou-se contra a 15ª e 81ª Divisões de Fuzileiros do 13º Exército, seguida de centenas de tanques médios Pzkw IV, com infantaria deslocada em transporte blindado de pessoal. Em apoio das duas divisões, o 16º Exército Aéreo manteve-se em incessante atividade.

Apesar das enormes perdas provocadas por minas, que destruíram cerca de 100 tanques e canhões, e pelo engenhoso sistema soviético, que conduzia os blindados a corredores sob a área de cobertura de seus canhões antitanque, os alemães perseveraram neste ataque, de modo que, pelo final do dia, a 15ª e a 81ª Divisões tinham sido obrigadas a abandonar sua primeira linha defensiva e a tomar posições na segunda linha, situada a 5Km atrás.

No setor ocupado pela 132ª e pela 280ª Divisões do 70º Exército, num ataque secundário, feito na direção de Gnilets, os alemães conseguiram avançar 5Km no primeiro dia. Na junção do 13º com o 48º Exércitos, os alemães atacaram numa tentativa de penetrar até Maloarkhangelsh, mas embora conseguissem de início varar a zona defensiva avançada, foram repelidos para suas linhas de apoio por vigorosos contra-ataques.

Somente à tarde de 5 de julho é que os blindados alemães foram lançados em grandes números ao combate e, ao anoitecer, haviam entrado em combate com todos os efetivos das defesas soviéticas. Horas depois, a força de assalto alemã estava em grande parte enredada no primeiro cinturão defensivo. À exceção de alguns grupos isolados de Tigres, os tanques alemães encontravam-se presos na principal zona defensiva, sem qualquer infantaria a protegê-los. Durante a noite, grupos de Panzergrenadier abriram caminho pelo campo de batalha, na tentativa de se juntarem aos Panzers isolados, sofrendo contato com patrulhas soviéticas a todo o tempo. Ao amanhecer de 6 de julho, a infantaria alemã conseguira, a altíssimo custo, tomar boa parte do primeiro cinturão defensivo.

Model no comando de seu 9º Exército

Já se percebera que os canhões do segundo cinturão haviam avançado sobre o terreno agora ocupado pelas tropas de assalto alemãs e, para substituir os canhões perdidos no primeiro cinturão, muitos tanques tinham sido trazidos para a frente e estacionados com o casco afundado no terreno, de modo que, quando os alemães reiniciaram o ataque, verificaram que a oposição era tão forte quanto no dia anterior. No norte Model reiniciara o ataque contra o 13º Exército, mas ao anoitecer de 6 de julho ele conseguira penetrar apenas 10Km no máximo, perdendo no processo mais de 25.000 homens entre mortos e feridos e cerca de 200 tanques e canhões autopropulsados. Além disso, o XLVII Corpo Panzer, que, à sua direita havia feito o maior avanço, encontrava-se detido diante de uma série de pequenas colinas ao norte de Olkhovatka. Para o êxito da ofensiva de Model, era essencial que o XXIII Corpo de Exércitos, à sua esquerda, penetrasse profundamente as defesa soviéticas em torno de Maloarkhangelsk, a fim de proteger as forças blindadas do ataque das reservas operacionais de Rokossovsky vindas do leste. Entretanto, o XXIII Corpo de Exércitos progredia muito pouco, diante das três divisões da ala direita do 13º Exército, e o reconhecimento aéreo comunicava poderosas colunas soviéticas deslocando-se para oeste.

Model preocupara-se em evitar por em risco a maior parte de sua força blindada na primeira leva – na verdade lançara apenas uma divisão Panzer, a 20ª em combate – mantendo o restante, seis divisões Panzer e Panzergrenadier, com várias formações de canhões de assalto, de prontidão para explorar qualquer brecha aberta pela infantaria.

A 6 de julho, informado de que fora feita uma penetração na frente da 15ª Divisão de Fuzileiros soviética, na área de Gnilets, ele lançou três divisões Panzer pela brecha, e foram elas que chegaram às colinas. A reação de Rokossovsky foi ordenar que o 2º Exército de Tanques se concentrasse para um ataque no eixo de Olkhovatka, juntamente com o XVII Corpo de Fuzileiros dos Guardas do 13º Exército, de acordo com o plano já elaborado. Os blindados soviéticos puseram-se em movimento durante a tarde para se concentrarem com o III Corpo de Tanques ao sul de Ponyri, o XVI em Olkhovatka e o XIX em Novoselki e Molotychi. Entretanto o horário estipulado no plano mostrou-se demasiado rigoroso, pois embora os blindados conseguissem chegar às suas áreas de concentração a tempo, a noite curta impossibilitou a realização de reconhecimento adequado. Assim, o contra-ataque foi um fracasso; ao contrário do que pretendia, que era rechaçar os tanques de Model, o 2º Exército de Tanques não foi capaz de sustentar a primeira linha de defesa, sendo obrigado a retirar-se para a segunda. Rokossovsky então ordenou que o III Corpo de Tanques saísse em defesa da linha na área de Gorodische, enquanto o restante do exército apoiaria a tentativa da 16ª e 17ª Divisões de Fuzileiros dos Guardas de restaurar a frente do 13º Exército.

Panzergrenadier SS avançam em meio a uma plantação

Nessa época do ano o dia amanhece cedo e às 03:50 de 6 de julho já estava bem claro para começar o bombardeio de artilharia. Os canhões martelaram as posições alemãs por 70 minutos, enquanto os bombardeiros iam e vinham sobre o campo de batalha. Às 05:00, a barragem foi suspensa e a infantaria avançou, enquanto o XIX Corpo de Tanques atacava de Novoselski para nordeste. Este ataque, embora melhor sucedido que o anterior, não foi, entretanto, decisivo, assim, Rokossovsky ordenou que o Exército de Tanques entrincheirasse seus blindados de forma a defender a linha. Eles deveriam manter-se assim diante dos tanques pesados e médios do inimigo, só saindo para lutar em campo aberto contra a infantaria e blindados leves. Ali, durante os quatro dias seguintes, o destino do ataque de Model seria decidido, em meio aos milharais em chamas, sob um sol abrasador, em combate corpo-a-corpo, de ferocidade raramente igualada e num choque de tanques realizado em escala superada apenas pelo ocorrido, dias mais tarde, na parte sul do bolsão.

As tropas de Rokossovsky estavam instaladas em elevações, próximas a Poniry e Molotychi, num terreno transformado num labirinto de trincheiras e canhões. Os alemães atacaram em levas sucessivas, primeiro na extremidade oeste da linha e, depois, na leste. Os batalhões se reduziram a efetivos de companhia, as companhias a efetivos de pelotão (em uma hora, uma companhia do 112º Regimento Panzergrenadier perdeu todos os seus oficiais, mortos ou feridos, mas continuava atacando).

A 8 de julho Model lançou sua última reserva blindada – a 4ª Divisão Panzer – contra a aldeia de Teploye, na extremidade oeste da linha. Os tanques de três divisões Panzer (2ª, 4ª e 20ª), apoiados por infantaria motorizada, avançaram contra a aldeia, apenas para esbarrar na robusta defesa que Rokossovsky estendera não só na aldeia, mas também nas elevações situadas atrás dela: duas divisões de fuzileiros, uma de artilharia, duas brigadas de tanques e uma brigada de canhões de assalto. Mas esta força, embora poderosa, não podia defender a aldeia e foi sendo empurrada para o alto da crista. Os únicos canhões que ainda detinham o caminho dos alemães para o domínio das elevações eram os da 3ª Brigada Antitanque. A brigada perdeu quase um regimento inteiro e começou a ficar sem munição, permitindo ao 33º Regimento Panzergrenadier a tomada das elevações. Mas um contra-ataque soviético o repeliu; os alemães tornaram a atacar e as recapturaram, sendo novamente repelidos. Numa terceira tentativa, o 33º chegou de novo ao topo e, pela terceira vez, foi rechaçado. Não haveria penetração naquele local.

Na extremidade leste da crista de Ponyri – uma aldeia comprida e solitária de um trecho da ferrovia Orel-Kursk – transformou-se em uma Stalingrado em miniatura. A linha férrea e a parte norte da aldeia caíram no primeiro dia de ataque, daí por diante, porém, cada prédio se transformou numa fortaleza. Os alemães avançaram passo a passo e, num esforço para romper o impasse, Model lançou em combate sua última reserva de infantaria motorizada, a 10ª Divisão Panzergrenadier, na noite de 10 para 11 de julho. Mas o impasse permanecia – tampouco haveria penetração ali.

O pior, para Model, é que as forças da Frente Oeste e de Bryansk estavam prestes a contra-atacar para noroeste, e Rokossovsky já fazia rolar o restante de suas tropas no sentido de juntar-se à contra-ofensiva, também conforme o plano elaborado.

 

A batalha no sul: A ofensiva de Hoth e Kempf contra a defesa de Vatutin, que culminou na maior batalha entre blindados da história da humanidade.

Mapa da ofensiva alemã na ala sul do bolsão

 

O ataque à frente de Vatutin começou pouco antes do dirigido contra Rokossovsky. A 4 de julho, já dia claro, elementos avançados alemães, apoiados por aviões e artilharia, tentaram penetrar a linha do 6º Exército de Guardas de modo a melhorar as condições de partida da ofensiva principal e, ao anoitecer, tinham conseguido uma brecha a oeste de Dragunskoye. Vatutin, informado de que o ataque começaria na noite de 4 para 5 de julho, decidiu realizar um contra-bombardeio ao longo da frente do 6º e 7º Exércitos de Guardas, dirigido contra as forças atacantes e a artilharia alemã. O bombardeiro desorganizou um pouco os preparativos alemães e somente às 06h é que a ofensiva começou.

A princípio, o ataque feito pelo 4º Exército Panzer, de Hoth, e pelo Destacamento de Exército “Kempf” contra o setor sul do bolsão mostrou-se promissor. O erro cometido pelo Stavka, de supor que o ataque principal seria feito por Model, no norte; fizera que a Frente de Vatutin recebesse prioridade relativamente baixa (saliente-se, apenas relativamente). Hoth e Kempf, que estavam mais diretamente sob o controle de Manstein que Model, que era subordinado ao Grupo de Exércitos Centro, haviam aplicado plenamente a tática da “cunha blindada”, diferente de Model, que lançou a infantaria para abrir caminho aos tanques. Ademais, Hoth decidira usar todos os seus blindados desde o início, ao contrário, de novo, do que fez Model, que optou por utilizá-los aos bocados, de modo que o golpe inicial, de Hoth, com cinco divisões Panzer ao norte de Belgorod e três ao sul, foi muito mais forte que o de Model, no norte, com cerca de 1.000 tanques e 350 canhões de assalto empenhados em ação a 5 de julho, 300 deles só no setor da Divisão Grossdeutschland.

Hoth observa a partida de seus blindados

Vatutin, ao que parece, não foi tão eficientemente servido pelo reconhecimento aéreo quanto Rokossovsky, e Hoth, que se tornara famoso como hábil comandante de blindados, era um antagonista mais astuto do que Model, cuja fama repousava na aptidão para lutar na defesa. A existência de duas grandes forças blindadas (4º Exército Panzer e Destacamento de Exército “Kempf”) de cada lado de Belgorod também deixava Vatutin em dificuldade para descobrir a direção do ataque principal alemão. Três possibilidades havia, segundo ele. Hoth poderia atacar do oeste de Belgorod para o norte, cruzar o Rio Psel em Oboyan e prosseguir no rumo norte, para Kursk, enquanto o Destacamento de Exército “Kempf” atacaria da área de Belgorod para nordeste, na direção de Korocha, ou poderia atacar mais ao sul, do oeste de Volchansk para Novposkol. A primeira opção, e a mais óbvia, encurtava-lhe bastante o caminho, através da garganta do bolsão de Kursk, enquanto as duas outras eram alternativas que poderiam resultar numa “grande solução” ou seja, arrebanhar as reservas da Frente Voronezh e as tropas existentes no bolsão propriamente dito. Ele acreditava em que o ataque principal seria desfechado contra Oboyan ou contra Korocha, mas não conseguia vislumbrar o ponto que seria visado. Diante disso, desenvolveu suas forças principais à sua esquerda e no centro, colocando o 7º Exército de Guardas (Tenente-General M. S. Shumilov) ao sul de Belgorod e o 6º Exército de Guardas (Tenente-General M. M. Chistyakov) ao norte da cidade. Atrás do 6º Exército de Guardas, cobrindo o caminho para Oboyan, ele colocou dois corpos de tanques e um mecanizado do 1º Exército de Tanques, do Tenente-General M. E. Katukov, reforçado de mais dois corpos de tanques da Reserva da Frente, dando-lhe um total de 1.304 veículos de combate blindados.

Vatutin estava certo quando admitiu que Hoth rumasse para Oboyan, mas a ordem do OKH dirigida ao 4º Exército Panzer mandava-o “procurar entrar em contato com o 9º Exército mediante um avanço pelo caminho direto através de Oboyan”. Mas Hoth sabia, pelo reconhecimento aéreo, que o 1º Exército de Tanques estava disposto de forma a bloquear-lhe o caminho para Oboyan, e que também vários corpos de tanques se encontravam na reserva a sudeste de Kursk, enquanto que o 5º Exército de Tanques dos Guardas, do Tenente-General P. A. Rotmistrov, o componente blindado da Frente da Estepe, se desenvolvera bem atrás da orla sudeste do bolsão, em torno de Ostrogozhsk. Portanto, Hoth admitia que, se obedecesse fielmente à diretiva do OKH, encontraria sérias dificuldades com o ataque dirigido pela reserva blindada de Vatutin ou, pior ainda, por Rotmistrov contra seu flanco direito, enquanto ele estivesse empenhado em combate, na frente, com o 1º Exército de Tanques antes mesmo de ter saído do sistema defensivo soviético. Ele admitiu também a probabilidade de serem enviados do leste reforços blindados soviéticos, que teriam de passar por Prokhorovka, e decidiu rumar primeiro para ali, evitando assim o 1º Exército de Tanques.

T-34s fora de ação no começo da ofensiva da ala sul

Ao explicar tal decisão a seu Estado-Maior, disse: “É melhor eliminarmos primeiro o inimigo esperado em Prokhorovka, antes de avançarmos para o norte, na direção de Kursk”. Assim, por iniciativa própria, Hoth até certo ponto invalidou as medidas tomadas por Vatutin logo no começo da batalha. Para complicar ainda mais a tarefa da defesa, o violento ataque aéreo dos soviéticos aos aeródromos alemães situados em torno de Kharkov, planejado cuidadosamente para surpreender a força aérea alemã no momento mais vulnerável – quando os aviões estivessem sendo abastecidos, ou alinhando-se para decolar em apoio da ofensiva de Hoth – fracassou por completo, porque, sem que o comando soviético soubesse, os alemães haviam instalado equipamento “Freya”, uma forma primitiva de radar, na área de Kharkov. Este equipamento avisou os alemães a tempo de lhes permitir despachar caças para interceptar os bombardeiros soviéticos, derrubando muitos deles, dando aos alemães uma superioridade aérea temporária sobre o campo de batalha.

A despeito da feroz resistência encontrada, o XLVIII Corpo Panzer (General von Knobelsdorff) conseguiu penetrar a frente da 67ª Divisão de Fuzileiros dos Guardas e dirigiu-se para o norte, para Oboyan e a travessia do Psel, enquanto que o Corpo Panzer SS (SS Obergruppenführer Hausser) penetrou as posições da 52ª Divisão de Fuzileiros dos Guardas e dirigiu-se para Prokhorovka. Assim, a frente do 6º Exército de Guardas fora rompida em dois lugares, criando uma situação séria. Mais ao sul, o Destacamento de Exército “Kempf” cruzou o Donets e rumou para Rzhavets, mas os Guardas de Shumilov foram mais bem sucedidos do que o 6º Exército de Guardas no esforço por preservar a sua frente. Assim, o progresso do Destacamento “Kempf” foi lento, não conseguindo, desta maneira, dar a pretendida cobertura de flanco ao Corpo Panzer SS. Não obstante, a posição soviética estava ameaçada e Vatutin emitiu uma ordem categórica: “Os alemães não podem penetrar até Oboyan em hipótese alguma”. O General Katukov mandou dois regimentos de canhões de assalto para o sul, a fim de ajudarem o 6º Exército de Guardas, mas eles foram destruídos em duas horas. À noite, o membro do Conselho Militar de Vatutin, Nikita Krushev, foi ao Q-G de Katukov e disse-lhe, ao chegar: “Os próximos dois ou três dias serão terríveis. Ou resistimos, ou os alemães tomam Kursk. Eles estão jogando tudo nessa cartada, que consideram questão de vida ou de morte. Temos de fazer com que fracassem por completo”.

Um destacamento de Pzkw IV atravessa uma aldeia em chamas

A despeito das dificuldades mecânicas de seus tanques Pantera, o XLVIII Corpo Panzer estava avançando bem e, pela manhã de 7 de julho, a Divisão Grossdeutschland capturou a aldeia de Dubrova e rechaçou o III Corpo Mecanizado para Syrtzevo, no Rio Pena, a última posição defensável diante de Oboyan. Na manhã de 8 de julho, o Comandante do III Corpo Mecanizado, General Krivoshein, lançou vigoroso ataque, com 40 tanques T-34, contra os Tigres da 48ª Panzer, mas inutilmente, sendo obrigado a recuar para a outra margem do Pena.

Subindo a margem leste do rio, a Grossdeutschland chegou à aldeia de Verkhopenye, tomou-a, juntamente com sua ponte, que os sapadores alemães restauraram com rapidez para que os veículos de lagartas atravessassem o rio. Na manhã seguinte (10 de julho), o 6º Regimento Panzer, apoiado por Panzergrenadieren, artilharia, canhões de assalto e antitanques, atravessou a ponte e dirigiu-se para o sul, contra a retaguarda da 71ª Divisão de Fuzileiros de Guardas, cuja frente já estava sendo atacada por duas divisões de infantaria alemãs. Milhares de prisioneiros foram feitos, e a frente soviética nesse setor teve de recuar. Entrementes, o corpo principal do XLVIII Corpo Panzer continuava avançando para Oboyan, com a Grossdeutschland a oeste da estrada e a 11ª Divisão Panzer a leste. A tarde, elas haviam chegado às elevações próximas de Oboyan, no Rio Psel, a última barreira natural antes de Kursk.

Sapadores soviéticos limpam um campo minado para os tanques

Mas o plano de Hoth exigia apenas a travessia do rio, depois do que o XLVIII Corpo Panzer deveria desviar-se para leste, em apoio do Corpo Panzer SS na batalha de Prokhorovka, em que este enfrentaria as reservas blindadas soviéticas que dali se aproximavam. Assim, por algum tempo, não houve avanço do sul para Kursk. O plano de Hoth, a despeito de ter conseguido iludir Vatutin, começou a dar sinais de que iria descompensar o êxito inicial pois o Destacamento de Exército “Kempf” tinha papel importante a desempenhar e não vinha desincumbindo-se dele a contento. Ele deveria atacar para o norte e dar cobertura de flanco no combate aos tanques da Frente da Estepe – o 5º Exército de Tanques de Guardas – que se aproximavam, enquanto Hoth cuidava dos blindados da Frente Voronezh. O 7º Exército de Guardas, do General Shumilov, tropa experimentada, bem dirigida e bem entrincheirada atrás de campos minados, conseguira transformar o avanço de Kempf em mero rastejar. O caminho de Rotmistrov para oeste não seria bloqueado. Mas o 5º Exército de Tanques de Guardas teve de deslocar-se 360 km, chegando à sua área de concentração, a nordeste de Prokhorovka, só na noite de 9 de julho e sem condições de atacar de imediato. Dias antes o 1º Exército de Tanques havia sofrido perdas de fato muito grandes, daí a necessidade da presença desta tropa ali. As baixas na infantaria do 6º Exercito de Guardas também foram sensíveis e a decisão de reforçar a Frente Voronezh com o 5º Exército de Tanques de Guardas e com o 5º Exército de Guardas deu como resultado um enfraquecimento considerável da Frente da Estepe, comandada por Koniev, que entrara no planejamento das operações como Frente principalmente de contra-ofensiva. Acontece, porém, que houve sinais de pânico entre os integrantes do 6º Exército de Guardas e do 1º Exército de Tanques, e se este setor caísse, cairia o bolsão e com ele qualquer chance de contra-ofensiva. Diante disso o enfraquecimento da Frente da Estepe foi nada mais, nada menos que uma opção lógica.

Os quatro exércitos receberam ordens de montar um contra-ataque na manhã de 12 de julho, com o 5º Exército de Guardas forcejando ao longo de uma linha que ia de Prokhorovka até Yakovlevo e Tomarovka. O preparativo do contra-ataque complicou-se porque, a 11 de julho, as forças do 1º Exército de Tanques e do 6º de Guardas foram obrigadas a recuar, diante dos golpes que os alemães vibraram do oeste e do sul, e, assim, não estavam nas posições que lhes foram designadas no momento do início do ataque. As informações sobre o desenvolvimento e as intenções dos germânicos eram incompletas, mas, não obstante, decidiram os russos sair assim mesmo para o ataque. Ao contrário de alguns dos comandantes de esquadras de tanques alemãs, Rotmistrov preferia dirigir suas batalhas postado, estático, em local que lhe permitisse ver o campo de batalha. Assim, ele instalou seu Q-G num outeiro que dominava toda Prokhorovka. A 12 de julho, de manhã bem cedo, sob os olhos do comandante, seus tanques partiram para o contra-ataque – havia cerca de 850 deles, na maioria T-34, inclusive alguns canhões autopropulsados. No momento em que se punha em movimento, uma força blindada alemã, quase tão grande quanto a russa, aproximava-se, Vindo da direção oposta. Era o Corpo Panzer SS de Hausser que se deslocava célere ao seu encontro com quase 700 tanques, dentre os quais cerca de 100 Tigres. Por coincidência, a ofensiva de Rotmistrov se deu no momento em que os alemães reiniciavam o ataque a Prokhorovka.

T-34s contra-atacam em terreno difícil

Os T-34, menos blindados e com canhões menos potentes que os Tigres alemães eram obrigados a encurtar a distância de combate para poder efetivamente enfrentar seus adversários, o que foi conseguido com um avanço espetacular e quase suicida das forças de Rotmistrov, especialmente do 2º Batalhão da 181ª Brigada do XVIIII Corpo Blindado, que atacava ao longo da margem esquerda do Psel. Numa barafunda de tanques em movimento, onde não se distinguia quem atacava e quem defendia e com encarniçados combates aéreos sobre o campo de batalha, os T-34 lograram rechaçar, ao menos provisoriamente, as forças do XLVIII Corpo Panzer.

À tarde, Hoth também chegara. A despeito da superioridade dos alemães em tanques pesados, os homens de Rotmistrov estavam revidando à altura os tanques que formavam as divisões Panzer SS. Somente a chegada da 6ª Divisão Panzer do Destacamento de Exército “Kempf” podia fazer pender a balança em seu favor, mas embora essa divisão tivesse chegado ao Donets, passando por Rzhavets, graças a um arrojado ardil atravessando direto as linhas russas, à noite, dirigidos por um tanque T-34 capturado, ela estava ainda muito distante. Além disso, os soviéticos acabaram descobrindo o ardil (que eles próprios haviam usado para capturar a importante ponte sobre o Don, em Kalach, durante sua ofensiva de Stalingrado) e a 6ª Panzer fora detida, motivo por que jamais chegaria a tempo. Ao anoitecer, cada lado perdera mais de 300 tanques; o contra-ataque soviético, visando a destruir o Corpo Panzer SS, fracassara e Rotmistrov recuou para reagrupar-se, deixando o campo aos alemães. Mas isto não importava. Durante o dia, Hoth fora informado do início da contra-ofensiva soviética, ao norte do bolsão, pelas Frentes Oeste e Bryansk ele já sabia também que forças anglo-americanas haviam invadido a Sicília dois dias antes e a tensão que esses dois acontecimentos imporiam aos limitados recursos da Alemanha logo selariam o fracasso da “Operação Cidadela”. Além disso, embora as perdas de ambos os lados tivessem sido aproximadamente iguais, os homens de Rotmistrov mostraram-se capazes de resistir aos novos tanques alemães, dos quais tanto se esperava e o 5º Exército de Tanques dos Guardas ainda tinha mais de 500 tanques, ao passo que Hausser possuía pouco mais de 350. A elite da Alemanha nazista, armada com o que de mais avançado produzira sua tecnologia e fortificada pela crença que tinha em sua superioridade racial, enfrentara seus “inferiores” num choque decisivo, descobrindo que eles lhes eram iguais em todos os aspectos.

Alemães mortos e um Tigre em chamas testemunham a vitória russa

Em um dia de luta o Corpo Panzer SS perdera quase metade dos tanques que possuía, o que afinal feriu menos que o golpe vibrado no orgulho de seus integrantes. A maior batalha de tanques da História terminara e a posse de uns poucos quilômetros quadrados de terra calcinada soviética não tinha qualquer valor, porque Hausser teria de cedê-los em breve. Ele também teria de ceder seu posto de comandante do Corpo Panzer SS, pois Hitler o culpou da derrota. Mas, na realidade, o que estivera em jogo não fora apenas a reputação de Hausser. Ali, no estreito campo de batalha de Prokhorovka, limitado de um lado pelo Rio Psel e, do outro, pelo aterro da linha férrea, ocorrera o que Koniev, mais tarde Marechal da União Soviética considerou “o canto de cisne dos blindados alemães”.

 

O contragolpe soviético: O avanço russo até a Linha Hagen, no norte, e a tomada de Belgorod, no sul, marcaram a violenta contra-ofensiva à “Cidadela”.

 

Mapa da contra-ofensiva soviética no norte

A corrida da morte do 4º Exército Panzer fizera mais do que confirmar os maus presságios para a “Operação Cidadela”, criados pela invasão da Sicília a 10 de julho e pelo início das ofensivas das Frentes Bryansk e Oeste, a 12 de julho. No dia seguinte, Hitler convocara Manstein e Kluge para uma conferência a realizar-se imediatamente. A atmosfera era sombria e de muita incerteza; os que haviam condenado a “Cidadela” nem sequer podiam vangloriar-se de que tinham acertado, porque a todos oprimia o perigo de que a invasão da Sicília pudesse resultar em uma grande crise política na Itália. Hitler foi direto ao assunto: “Graças à miserável estratégia italiana, é praticamente certo que perderemos a Sicília. Talvez Eisenhower desembarque amanhã na Itália continental ou nos Balcãs. Quando isso acontecer, todo o nosso flanco sul europeu estará diretamente ameaçado. Tenho de impedir que isso aconteça. Assim preciso de divisões para a Itália e os Balcãs e, como não podemos tirá-las de nenhum outro lugar, à parte a transferência da 1ª Divisão Panzer da França para o Peloponeso, elas terão de ser retiradas da Frente de Kursk, motivo por que sou obrigado a suspender a ‘Operação Cidadela’ “.

A cavalaria soviética se lança à perseguição do inimigo

O primeiro golpe soviético foi desfechado enquanto os alemães ainda faziam pressão contra o saliente de Kursk. Na ala norte desta frente, a poderosas forças russas que repeliram o ataque alemão estavam também em situação de atacar no lado sul do saliente mantido em torno de Orel. Ao norte e a leste do bolsão de Orel encontravam-se outros poderosos exércitos cuja presença havia fincado ao terreno consideráveis forças alemãs e impedido seu emprego na ofensiva. Mas a 11 de julho, ficara evidente que as principais concentrações alemãs haviam sido completamente engajadas e chegara a ocasião propícia para um poderoso contragolpe para o qual os russos se achavam plenamente preparados.

Os preparativos para a contra-ofensiva exigiram grande quantidade de trabalho de engenharia. Só a Frente Bryansk recebeu três brigadas de sapadores de assalto e 20 batalhões de construtores de pontes, enquanto que o 11º Exército de Guardas recebeu sete batalhões de sapadores. Nos três ou quatro dias anteriores ao início da contra-ofensiva, os sapadores soviéticos principiaram a limpar, em segredo, os seus campos minados e os dos alemães. Somente no setor do 11º Exército de Guardas eles retiraram 30.000 minas antitanque e 12.000 antipessoal.

A força aérea russa ataca vigorosamente as colunas alemãs

Nas primeiras horas da manhã de 12 de julho, sob a cobertura de uma preparação de artilharia que os russos afirmam ter excedido qualquer outra na história da guerra, foi desfechado o assalto contra o saliente de Orel. Era o mais formidável de todos os empreendimentos já realizados pelos russos. As dificuldades encontradas previamente em Rzhev caracterizavam toda a frente central da qual Orel era agora um bastião avançado. Toda essa região estivera em mãos dos alemães desde o outono de 1941, e durante aproximadamente dois anos eles haviam assiduamente reforçado as defesas dos centros mais importantes, tais como Bryansk, Smolensk e também Orel. Tratava-se de uma região em que as florestas, os pântanos e os cursos d’água reduziam as possibilidades de manobra e dificultavam a mobilidade não só dos tanques, mas também da artilharia pesada, necessária para apoiar os ataques contra posições fixas.

Diante das defesas alemãs, a solução que Sokolovsky e Popov adotaram foi estreitar seus setores de ataque e aumentar-lhes a profundidade, organizando-os em dois ou três escalões, um atrás do outro. Assim é que, de acordo com a resistência encontrada, os setores variavam, por exemplo, de 4 a 6,5 Km para os corpos, os setores designados aos VIII e XXXVI Corpos de Guardas do 11º Exército eram de apenas 3,2 Km de largura, as divisões de fuzileiros do primeiro escalão receberam setores de cerca de 1.600 m de largura. A estrutura dos três escalões, por força da característica do sistema defensivo, fugia inteiramente ao costumeiro.

A vitoriosa tripulação de um T-34 soviético

Pelo entardecer de 13 de julho, o 11º Exército de Guardas penetrou as defesas alemãs numa profundidade de quase 26 Km, e a frente de Bryansk, embora progredindo mais lentamente, conseguiu uma penetração no eixo de Bolkhov, de 6,5 Km de profundidade, com forças de assalto do 61º Exército, enquanto que o 3º e o 63º Exércitos, atacando no eixo de Orel, haviam penetrado 16 Km ao anoitecer de 13 de julho.

Mas a resistência alemã estava longe de ser dobrada. A 12ª Divisão Panzer e a 36ª de Infantaria foram transferidas do 9º Exército, juntamente com toda a artilharia pesada e antitanque antes destacadas para o desenvolvimento da ofensiva.

Por volta de 19 de julho, a ofensiva do 11º Exército de Guardas ameaçava as comunicações alemãs do noroeste. O 61º Exército chegara a Bolkhov; o 3º e o 63º Exércitos tinham penetrado as defesas na área do rio Oleshnya, ao sul de Mtsensk, e avançado 10 km através delas. As tropas de Rokossovsky haviam rechaçado os alemães, fazendo-os voltar às suas linhas de partida, no lado norte do bolsão, e dois dias depois começaram a obrigá-los a recuar para além delas. O ritmo da luta pelo bolsão de Orel estava aumentando e Sokolovsky decidiu acelerá-lo ainda mais, lançando no combate, em sua ala esquerda, o 11º Exército, o 2º Corpo de Cavalaria de Guardas e o 4º Exército de Tanques da Reserva do Q-G-Geral enquanto que Popov utilizava o 3º Exército de Tanques de Guardas também da Reserva do Q-G-Geral. Foi difícil lançar estas forças na batalha, porque o 11º Exército acabara de ser formado e tinha de se deslocar da área de Kaluga, enquanto que o 3º Exército de Tanques de Guardas e o 4º Exército de Tanques, que estavam muito à retaguarda, tiveram a marcha atrasada pelas fortes chuvas que puseram fim ao período de estio. Não obstante, o 11º Exército lançou-se à luta a 20 de julho, entre o 50º e o 11º de Guardas, com a tarefa de dar cobertura ao 11º de Guardas a norte e a noroeste atacando Khvastovichi; mas como o 11º Exército não estivesse suficientemente bem treinado, a marcha de 160 km que fez deixara a infantaria cansada e os serviços de abastecimento muito para trás. Assim, o ataque fracassou. A 26 de julho, Sokolovsky utilizou o 4º Exército de Tanques pelo meio do 11º de Guardas, com ordens de penetrar e liberar Bolkhov. Devido à resistência das defesas alemãs, essa tarefa demorou três dias para ser cumprida, mas quando o 4º Exército de Tanques, o 11º de Guardas e o 61º Exército a terminaram, Model teve a posição de Orel flanqueada pelo noroeste.

Metralhadores alemães se preparam para um ataque

Entrementes, também Popov flanqueara os alemães, em Mtsensk, obrigando-os a iniciar a retirada. Para impedir que chegassem a Orel, Popov ordenou ao 3º Exército de Tanques de Guardas que atacasse para noroeste, a fim de cortar a estrada Orel -Mtsensk e tomar as pontes sobre o rio Oka, enquanto o restante de suas tropas continuavam atacando Orel, pelo leste.

A ala direita da Frente Central continuou avançando para noroeste, na direção de Kromy, tendo penetrado 40 km nas defesas alemãs por volta de 30 de julho.

No começo de agosto, a luta chegava às portas de Orel e todas as estradas que conduziam à cidade estavam cobertas de colunas intermináveis de forças alemãs em retirada, afunilando-se nas ruas da cidade e nas travessias sobre o rio Oka, onde eram submetidas a contínuos ataques aéreos pelos soviéticos. Na noite de 3 para 4 de agosto, unidades de três divisões de fuzileiros soviéticas chegaram aos arredores da cidade, encontrando-a em chamas. O Conselho Militar da Frente Bryansk fez um apelo às tropas: “Soldados e Oficiais… os bandidos nazistas estão destruindo Orel diante de seus próprios olhos… duas ou três horas de ataque de verdade… impedirão o inimigo de destruir por completo nossa querida cidade. Avante, para libertá-la o mais breve possível”.

Fez-se vigoroso ataque, e, embora demorasse mais que o esperado, os alemães foram finalmente expulsos da cidade a 5 de agosto. Orel, contudo, estava em ruínas. Antes da guerra, ela sustentara 100.000 soldados, mas todas as fábricas tinham sido destruídas, assim como as instalações ferroviárias. De pé, restavam alguns quarteirões residenciais.

Oficiais russos interrogam um prisioneiro alemão

 

Os alemães se mantiveram em marcha à ré, no bolsão de Orel, durante toda a primeira quinzena de agosto, retirando-se ordenadamente, apanhando e batendo, sofrendo e infligindo baixas aos russos, que lhes não davam tréguas, mas também não conseguiam isolar seções de vulto das forças de Model, cujo objetivo era levá-las até a “Linha Hagen”, posição defensiva que, partindo de Kirov, se estendia a um ponto situado a oeste de Dmitrovsiki-Orlovskiy, sobre a garganta do bolsão de Orel. Esta linha fora criada antes do início da ofensiva alemã, e protegia o importantíssimo centro rodoviário e ferroviário de Bryansk, um entroncamento das ferrovias norte-sul e leste-oeste atrás do Grupo de Exércitos Centro. Mas a perseguição dos russos, embora intensa, não deu para levar ao desmantelo o Grupo de Exércitos Centro. A 17/18 de agosto, a retirada alemã terminou. Os soldados soviéticos aproximaram-se da “Linha Hagen” marcando o fim da sua contra-ofensiva no eixo de Orel. Não houve nenhum “super-Stalingrado”, pois a habilidade de Model na defesa e as barreiras que os alemães haviam levantado o tinham impedido. Mas o 9º Exército e o 2º Exército Panzer nunca mais viriam a ser os mesmos, por terem perdido o equivalente a 14 divisões, um quinto dos efetivos do Grupo de Exércitos Centro havia sido destruído em menos de seis semanas, e a Alemanha não mais podia repor perdas de tamanha magnitude.

O início da contra-ofensiva no sul

 

A contra-ofensiva soviética no sul, em direção a Kharkhov

A 6 de agosto uma irradiação alemã, tentando minimizar a importância da perda de Orel e Belgorod, anunciava que “os efetivos do Exército Soviético já foram, em sua maior parte, gastos na ofensiva de verão. Não temos mais o menor receio de que os russos, depois de seus fracassos, consigam efetuar uma ruptura importante na frente alemã”. Tal otimismo era de fato excepcional em meio à sombria situação alemã, conseqüente dos últimos acontecimentos. Alimentar essa esperança era repetir a subestimação do poderio soviético, que já causara tantos desastres à Alemanha. Mesmo com a ofensiva de Orel em pleno desenvolvimento, os russos haviam-se mostrado capazes de montar poderosos ataques secundários que causaram grandes aflições aos estados-maiores alemães. Numa dessas ações, a Frente Norte do Cáucaso – relativamente calma até então – pôs quatro exércitos no assalto ao último ponto de apoio alemão na região, a Península de Tamã, ocupada pelo 17º Exército do Grupo de Exércitos A de von Kleist. Durante semanas os ataques foram repelidos, porém a pressão soviética tornava impossível a idéia de retirada de forças posicionadas nesta região para outros setores da frente e era esse o objetivo do Exército Vermelho, que foi alcançado plenamente.

Contudo, uma ameaça muito mais perigosa ao Grupo de Exércitos Sul foi criada pelos acontecimentos no sul da Ucrânia. Ali, Malinovsky lançou o 1º Exército de Guardas, da sua Frente Sudoeste, à outra margem do Donetz, contra as posições do 1º Exército Panzer, ao sul de Barvenkovo, enquanto à sua esquerda, o General Tolbukin, comandante da Frente Sul, lançava contra o 6º Exército germânico o 5º Exército de Choque e o 26º Exército, na linha defensiva do rio Mius.

Mapa da grande ofensiva estratégica soviética

O principal objetivo dessa ofensiva era expulsar os alemães da bacia do Donetz; pretendiam os russos com isso afastar, a curto prazo, tropas alemãs, sobretudo blindadas, do eixo Belgorod-Kharkhov, ou então reter as divisões alemãs no Mius e no Donetz de modo que não pudessem ser deslocadas para norte a fim de auxiliar Hoth.

Apesar da relativa baixa prioridade dada pelo Stavka às duas frentes soviéticas ao sul do bolsão, sua capacidade ofensiva estava longe de ser desprezível, chegando a superar os exércitos alemães na proporção de mais do que 2 para 1. Contudo os soldados alemães, em especial os do 6º Exército, gozavam da vantagem de estar em posições preparadas. O sistema de defesa da frente Mius possuía três zonas, contando a maior delas com mais de 112 Km de profundidade. A resistência das defesas ao longo do rio tornou extremamente lento e sangrento o avanço soviético. Não obstante, os russos conquistaram uma cabeça de ponte na margem inimiga e, a 19 de julho, o Serviço de Inteligência da Frente sul conseguiu apurar que a 13ª Divisão Panzer, já a caminho de Kharkov, mais ao norte, recebera ordens de voltar.

Para Manstein, a penetração soviética no Mius representava uma catástrofe para toda a ala sul da frente alemã. Por isso insistiu junto a Hitler sobre a necessidade de um recuo para a linha mais curta, ao longo do Dnieper. Com a negativa do Führer, Manstein não tinha outra alternativa que não eliminar a cabeça de ponte. Isto exigiria considerável força blindada, que foi suprida pelo Corpo Panzer SS, que estava de partida para a Itália, mas foi utilizado nesta operação, junto à 3ª Divisão Panzer, retirada do 4º Exército Panzer de Hoth.

A 30 de julho, os blindados trazidos das imediações de Kharkhov contra-atacaram na área do 6º Exército uma força soviética superior e eliminaram, com habilidade, a cabeça de ponte de Tolbukhin, fazendo 18.000 prisioneiros. Mas a pressão de Malinovsky sobre o 1º Exército Panzer ao longo do Donetz não pôde ser aliviada, pois outra tempestade se formava mais ao norte. A Inteligência alemã advertiu que grandes concentrações de blindados foram identificadas no bolsão de Kursk e na curva do Donetz, a sudoeste de Kharkov. Manstein notificou ao OKH que esperava uma ofensiva imediata contra a frente norte do Grupo de Exércitos Sul, suplementada por outra, a sudoeste de Kharkov, visando cercar as forças ali existentes em um grande movimento de pinças, a fim de abrir caminho para o Dnieper.

Feridos alemães aguardam evacuação para a retaguarda

O plano da operação Belgorod-Kharkov centrava-se em um ataque maciço, feito por dois exércitos de infantaria – 5º e 6º de Guardas -, cujo objetivo seria abrir uma brecha na linha de Hoth. Através dela, os dois exércitos de tanques – 5º de Tanques de Guardas e o 1º de Tanques – se introduziriam e rumariam para sudoeste, em direção a Akhtyrka, a partir de Tomarovka, flanqueando Kharkov pelo oeste.

Foi mais difícil montar esta operação do que a do norte, pois as Frentes da Estepe e Voronezh tinham sofrido pesadas baixas na batalha defensiva. Os soviéticos avaliaram as forças alemãs em, aproximadamente, 18 divisões, com cerca de 300.000 homens, uns 600 tanques, 3.500 canhões e 900 aviões da 4ª Luftflotte. As posições por eles tomadas consistiam de dois cinturões de defesa, pelo leste de Belgorod, estendendo-se pela margem oeste do Donetz. A cidade de Belgorod fora cercada por um anel defensivo bem reforçado e seus prédios de pedra passaram a funcionar como fortins. De modo idêntico procederam os alemães em relação a Kharkov, só que com dois anéis defensivos a cercá-la. Porém, o balanço das forças apresentava-se bem mais promissor para o Exército Vermelho, que contava com superioridade de mais de 3:1 em potencial humano, 4:1 em canhões e tanques e 3:2 em aviões. Com os veículos consertados, os veículos alemães capturados, as substituições permitidas pelo fato da produção soviética de tanques ser bem maior que a alemã e a adição dos tanques da Frente da Estepe à linha de batalha, os efetivos em tanques na linha de frente soviética, nesse setor, eram duas vezes maiores do que a 5 de julho, ao passo que Hoth e Manstein tiveram que enfrentar a batalha com apenas dois quintos dos efetivos Panzer que inicialmente possuíam.

A 24 de julho, a principal força de assalto soviética se concentrara ao norte de Belgorod, onde estava em boa posição para abater-se sobre as enfraquecidas divisões do 4º Exército Panzer e do Destacamento de Exército “Kempf”.

Patrulha soviética invade uma aldeia apoiada por tanque

A operação russa teve início a 3 de agosto, pela manhã, quando as forças situadas mais ao norte se aproximavam de Orel. Num espaço de 3 horas o 5º e o 6º Exércitos de Guardas haviam penetrado profundamente a principal linha defensiva alemã e, ao meio-dia, Vatutin lançou seus dois exércitos de tanques, pretendendo alcançar a retaguarda alemã. A Frente da Estepe, que não dispunha do mesmo volume de tanques e artilharia de Vatutin, progrediu com mais lentidão, mas às 15h já penetrara a linha defensiva principal e Koniev lançou em combate seu I Corpo Mecanizado, que conseguiu abrir uma brecha. As duas frentes continuaram atacando no dia seguinte e conseguiram avançar 19 Km, com a Frente da Estepe penetrando as posições que protegiam o norte de Belgorod. Na manhã de 5 de agosto de 1943, teve início a batalha pela cidade propriamente dita.

O 69º Exército do General Kryuchenkin chegou aos arredores de Belgorod durante aquele dia, enquanto o 7º Exército de Guardas conseguiu forçar a linha do Donetz, ameaçando a guarnição alemã na cidade pelo sul; o I Corpo Mecanizado avançou velozmente a oeste da cidade, cortou a ferrovia e a rodovia que ligavam Belgorod a Kharkhov, ameaçando cercar a guarnição alemã. A primeira formação do Exército Vermelho (270º Regimento da 89º Divisão de Fuzileiros de Guarda) penetrou a cidade às 6h de 5 de agosto e, por volta de 10h, os dois regimentos restantes da divisão também haviam entrado. A 305ª Divisão de Fuzileiros entrou igualmente na cidade, lutando muito. Verificaram então os alemães que não tinham outra alternativa senão abandoná-la. Ao anoitecer já se haviam retirado, deixando para trás mais de 3.000 mortos.

Metralhador alemão se protege da explosão de uma granada

A libertação de Belgorod e Orel no mesmo dia levou Stalin a uma celebração especial; então, ao anoitecer de 5 de agosto. Moscou foi sacudida pelo troar de salvas de artilharia, festejando a vitória, iniciando assim um costume que se cumpriria pelo resto da guerra.

A queda de Kharkov: A queda da cidade de Kharkhov e a grande ofensiva estratégica soviética, que levou quase ao colapso a frente oriental alemã.

 

Soldados russos avançam nos calcanhares dos alemães

A 6 de agosto, Zhukov e Koniev informaram Stalin sobre o curso dos acontecimentos e seus planos para continuarem a operação. O 53º Exército e o 5º de Tanques de Guardas deveriam cercar Kharkhov pelo oeste e sudoeste. O 7º Exército de Guardas atacaria do norte, enquanto o 69º Exército avançaria do leste para flanquear a cidade pelo sul. O 69º entregaria suas duas melhores divisões a Managarov e se retiraria para recompor seus efetivos, sendo depois reintroduzido à direita do 53º Exército.

Os primeiros êxitos foram explorados rapidamente. A 7 de agosto, os tanques haviam liberado Bogodukov, tendo avançado 100 km em cinco dias, ao mesmo tempo em que o 27º Exército, do General Trofimenko, ocupara Grayvorom a uns 48 km da sua linha de partida. Estas penetrações punham sob ameaça de cerco a 19ª Divisão Panzer e os remanescentes de três divisões de infantaria (57ª, 255ª e 332ª), que, no dia anterior, haviam recebido ordens do General von Knobelsdorff, comandante do XLVIII Corpo Panzer, para se retirarem para uma nova linha, que ia de Grayvoron a Akhtyrka. Ignorando que Grayvoron estava em mãos soviéticas, e que Trofimenko já se encontrava ao sul, a coluna de tanques e infantaria, dirigida pelo comandante da 19ª Divisão Panzer (Tenente-General Gustav Schmidt), começou sua retirada na manhã de 7 de agosto. Os alemães sabiam que uma brecha de 56 km de largura tinha sido aberta entre o 4º Exército Panzer e o Destacamento de Exército “Kempf”, mas não sabiam se as forças soviéticas haviam-na penetrado muito, mostrando-se por isso mais preocupados com o perigo de ataque aéreo do que com uma batalha em terra. Assim, providenciaram para que a coluna, com vários quilômetros de comprimento, recebesse cobertura aérea de um modo incomum: um revezamento de caças que realizaram ataques simulados à coluna, na esperança de que os pilotos soviéticos, vendo a cena a distância, concluíssem que a força alemã fosse na realidade uma coluna blindada soviética e a deixassem em paz.

 

Soldados soviéticos durante a limpeza de Khakhov

Sem que os alemães soubessem, as tropas de Trofimenko se dirigiam para o sul, paralelamente a eles. Aquela atividade aérea incomum foi observada por Trofimenko, que por algum tempo se manteve em dúvida, mas acabou compreendendo que nenhuma coluna soviética podia estar naquela área e mandou preparar uma emboscada em local onde a estrada passava por zona muito arborizada.

O General Varentsov, comandante de artilharia da Frente Voronezh, encarregou-se disso, dirigindo o fogo da maior parte da artilharia do 27º Exército contra a coluna de Schmidt. Colhida de surpresa, a coluna foi tomada de pânico, quando milhares de granadas caíram sobre ela e, para terminar o massacre, os Shturmovik foram chamados a intervir. Às 15h de 7 de agosto pouco restava das quatro divisões alemãs; 44 Tigres e vários Pzkw IV haviam sido destruídos; quilômetros de estrada ficaram juncados de destroços de centenas de canhões e veículos, e a infantaria do 27º Exército percorreu os bosques arrebanhando prisioneiros. O General Schmidt não estava entre eles: seu corpo foi encontrado atrás de uma árvore.

Embora as forças soviéticas não conseguissem fechar por completo o anel, somente fragmentos da 19ª Panzer e das três divisões de infantaria conseguiram juntar-se aos remanescentes da 7ª e da 11ª Divisões que, com o que restava da Divisão Panzergrenadier Grossdeutschland, defendiam a linha de Hoth, a leste de Akhtyrka. Entrementes, as forças de Koniev continuavam na ofensiva, a sul e sudoeste de Belgorod, encontrando dificuldades para vencer aa linhas defensivas intermediárias alemãs, onde Tigres e Ferdinandos se haviam entrincheirado. A ofensiva de Koniev acabou parando, por falta de poder de fogo que pudesse acabar com esses tanques e canhões de assalto. Assim, ele tomou a decisão de levar seus canhões de campanha de 122 mm e obuseiros de 152 mm para a linha de frente. Com a ajuda destes, o 5º Exército de Guardas e o 1º de Tanques conseguiram, nos dias 7 e 8 de agosto, capturar Bogodukov, Kazachya Lopan e Zolochev, que protegiam o flanco noroeste de Kharkov, dividindo assim a defesa alemã em dois setores.

Um blindado soviético destruído durante a batalha.

A posição de Manstein passou a ser extremamente precária, e a recomendação de Hitler de defender Kharkov a qualquer preço não a tornava melhor. A cidade estava sendo rapidamente flanqueada, com seis divisões e várias unidades Panzer menores dentro do bolsão. A infantaria, quatro divisões (106ª, 168ª, 198ª e 320ª), do XI Corpo de Exércitos que estivera guardando o sistema rodoviário a oeste de Kharkov, fora obrigada, por ordem de Hitler, a entrar na cidade. A ela juntaram-se a 167ª Divisão de Infantaria e a 6ª Divisão Panzer do 4º Exército Panzer, que ficaram retidas quando a arremetida de Vatutin repelira o 4º Exército Panzer para oeste. Estas duas divisões foram então acrescentadas ao XI Corpo de Exércitos, comandado pelo General de Tropas Blindadas, Erhard Raus. A força estava em boa forma, porém suas ordens retinham-na em Kharkov. A primeira providência de Manstein foi devolver-lhe a liberdade de movimento o mais rápido possível.

Vendo além das tarefas operacionais imediatas dos exércitos soviéticos, ele percebeu nitidamente a possibilidade de Vatutin e Koniev avançarem até o Dnieper. Se isto acontecesse, o Grupo de Exércitos A, do Feldmarechal von Kleist, seria isolado na Criméia e em Kuban. No futuro imediato, a tentativa de defender Kharkov a qualquer preço levaria ao cerco e eliminação das seis divisões de Raus. Para aumentar ainda mais as dificuldades de Manstein, a rapidez do avanço soviético resultara na perda de vários tanques alemãs que se encontravam em reparo, e suas divisões, a maioria das quais vinha lutando ininterruptamente desde 5 de julho, estavam com o potencial humano bastante desfalcado, além de exaustos os remanescentes delas. Segundo ele, duas das suas divisões haviam sofrido “colapso total”. Assim, quando Zeitzler chegou ao seu Q-G, a 8 de agosto, Manstein disse-lhe, até meio indelicadamente, que o comando não mais deveria restringir-se aos problemas, no seu entender secundários, referentes à divisão que seria poupada, se a cabeça-de-ponte de Kuban devia ou não ser defendida, mas preocupar-se com a grande questão do momento, que era a tentativa soviética de destruir a ala sul do exército alemão na Rússia. Para que se frustrassem as intenções do Exército Vermelho, a bacia do Donets deveria ser abandonada imediatamente, de modo a encurtar a linha e pelo menos permitir a defesa do setor sul do Dnieper. Alternativamente, o OKH poderia fornecer 10 divisões ao seu 4º Exército Panzer e ao 2º Exército do Grupo de Exércitos Sul, bem como despachar mais 10 para o Dnieper.

 

Tropas soviéticas resistem à ofensiva alemã

Seus argumentos tiveram algum efeito. A 11 de agosto, Hitler despachou a 3ª Divisão Panzer, de elite, da linha do Mius para o Donets, onde se incorporaria ao Destacamento de Exército “Kempf” para cobrir o flanco direito de Raus, que se encontrava exposto. A medida era desesperada, porque a linha do Mius já estava fragilmente guarnecida, mas expedientes desesperados passaram a constituir o dia-a-dia do Grupo de Exércitos Sul, o que, de certa forma, lembrava a reunião de 13 de julho, quando Manstein afirmou que todas as reservas soviéticas estavam empenhadas em combate.

As batalhas do bolsão do Kursk estavam prestes a transformar-se numa ofensiva estratégica geral das tropas russas. Enquanto isso, porém, a principal preocupação de Manstein continuava sendo a área de Kharkov. Os blindados de Rotmistrov estavam sondando na direção dos arredores oeste da cidade, enquanto os tanques do 7º Exército de Guardas avançavam do leste. A 10 de agosto, a 282ª Divisão de Infantaria alemã, a nordeste de Kharkov, alvo de violento assalto de tanques soviéticos, desbaratou-se e começou a fugir, em pânico, para a retaguarda. Os tanques T-34 entraram pelos subúrbios leste e o pânico propagou-se às demais formações alemãs. Entretanto, o esforço realizado pela 6ª Divisão Panzer conseguiu conter o assédio das forças russas, a 12 de agosto. Kharkov continuou alemã. Mas, por quanto tempo? O 1º Exército de Tanques de Katukov estava forçando a entrada na cidade pelo oeste, enquanto a Frente Sudoeste, de Malinovsky, lançara seu 57º Exército em combate a 10 de agosto. Ao anoitecer do dia 11 ele cruzara o Donets, no norte, capturara Chuguyev e começara a avançar sobre Kharkov, pelo sul e sudeste. Diretamente a leste da cidade, Koniev tinha três exércitos (7º de Guardas, 53º e 69º) atacando com vigor o perímetro defensivo externo. Naquele dia, porém, Manstein lançou poderoso contra-ataque. Ao sul de Kharkov, ele concentrara o II Corpo Panzer SS (as Divisões Panzer Das Reich, Totenkopf e Wiking) sob o comando do 4º Exército Panzer, enquanto que, e ao norte da cidade, ele desenvolvera a 3ª Divisão Panzer, recém-chegada do Mius, para fazer parte do antigo Destacamento de Exército “Kempf”, agora rebatizado com o nome de 8º Exército.

 

Tanques Tiger I participam da ofensiva sobre as forças soviéticas

A 11 de agosto, essas forças foram lançadas contra o 1º Exército de Tanques e contra o flanco esquerdo do 6º de Guardas. Ela e as Divisões Waffen SS infligiram tão grandes baixas e conquistaram tanto terreno que o 5º Exército de Guardas teve de ser trazido de volta ao local da brecha. Ele entrou em luta com as Waffen SS ao longo da ferrovia Kharkov-Bogodukov e da estrada Kharkov-Akhtyrka, sofrendo ambos os lados grandes baixas. Mas os alemães conseguiram manter abertas as comunicações rodoviárias e ferroviárias apenas com Merefa e Krasnograd, ao sul, e Manstein queria evacuar a cidade enquanto essas rotas estivessem abertas. Isto porque, independente dos êxitos locais que conseguisse, ele considerava inevitável o cerco total de Kharkov. Mas Hitler não lhe deu permissão para evacuá-la. Ao pedido de Manstein: ele respondeu: “A queda da cidade teria sérias repercussões políticas… a atitude dos turcos depende dela. O mesmo acontece com a da Bulgária. Se entregarmos Kharkov, perderemos a confiança de Ancara e Sofia”.

Manstein resmungou para seu Chefe de Estado-Maior, General Busse; “Não estou disposto a sacrificar seis divisões por causa de duvidosas razões políticas… Prefiro perder uma cidade, a perder um exército”. Mas tudo parecia indicar que ele perderia as duas coisas. Os planos de Tolbukhin, Malinovsky e de outros comandantes da Frente haviam sido examinados pelo Stavka e, na primeira quinzena de agosto, houve um fluxo de diretivas do Q-G Supremo comunicando o início de uma ofensiva estratégica ao longo de toda a linha de combate, de Velikiye Luki à costa do Mar Negro. A 12 de agosto, a Frente Voronezh foi notificada de que, após derrotar as forças alemãs em Kharkov, deveria soltar suas forças principais contra Poltava e Kremenchug, visando a chegar ao Dnieper e estabelecer cabeças-de-ponte na outra margem. No mesmo dia, a Frente da Estepe recebeu sua diretiva: seguir para Krasnograd e Verkhne-Dneprovsk, para o Dnieper e as cabeças-de-ponte. A 16 de agosto, a Frente Central recebeu ordens para alcançar o Rio Desna entre 1º e 3 de setembro, o mais tardar, e, em seguida, atacar na direção de Nezhin e Kiev (a maior cidade soviética que os alemães ainda detinham). Se as condições fossem favoráveis, ela deveria cruzar o Desna e atacar ao longo da sua margem oeste na direção de Chernigov. Todas as Frentes deveriam estar prontas para agir dentro de 10 dias. No sul predominava o mesmo ritmo intenso. Os Generais Malinovsky e Tolbukhin, que comandavam as Frentes Sudoeste e Sul, respectivamente, foram encarregados de destruir o 6º e o 1º Exércitos Panzer no Donbass, rumando depois para oeste, também em direção ao Dnieper. As frentes mais ao norte preparavam-se igualmente para o ataque. A seqüência das ofensivas seria de tal ordem, que as forças alemãs não conseguiriam tapar as brechas que se abririam simultaneamente ao norte, sul e centro.

A partir de 7 de agosto, a Frente Leste começou a explodir como uma espantosa girândola. Naquele dia, os Generais Sokolovsky e Yeremenko lançaram suas Frentes Oeste e Kalinin, numa operação conjunta, no eixo de Smolensk. Em seguida, quem entrou em ação foi a Frente Sudoeste, a 13 de agosto. Depois foi a vez da Frente Bryansk, que explodiu a 17 de agosto, vindo logo após, no dia seguinte, a Frente Sul. A 26 desse mês, entrou em ação a Frente Central, de Rokossovsky.

Quanto às Frentes Voronezh e da Estepe, estas apenas desenvolveram a ofensiva iniciada a 3 de agosto. Do outro lado do Estreito de Kerch, o 17º Exército, de Kleist, teve de resistir a outro ataque da Frente do Norte do Cáucaso. Manstein não esperou que toda a Frente Oriental explodisse. Evacuou Kharkov a 22 de agosto, enfrentando a fúria de Hitler, como já fizera antes, convencido de que a medida era indispensável.

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Soldados da 2ª Divisão SS Das Reich em avanço pelas planíces de Voronej, em 1943

A retirada dos alemães se fez preceder de demolições e incêndios em grande escala, e, numa tentativa de impedir que Manstein escapasse, e também de evitar a destruição total da cidade, Koniev ordenou um ataque noturno, que se realizou à luz dos prédios em chamas. Porém, ao amanhecer do dia 23, Kharkov, embora não passasse de um monte de ruínas fumegantes, estava completamente livre de alemães; as forças que não recuaram a tempo foram totalmente eliminadas. Os alemães viram-se obrigados a recuar até Merefa, aonde não chegava o som dos canhões e nem mesmo a artilharia de longo alcance podia atingir.

Kharkov era a terceira ou quarta maior cidade da União Soviética (a população era quase igual à de Kiev) e sua importância simbólica para Stalin fora muito grande, porque essa cidade e Kiev eram as maiores cidades soviéticas em mãos alemãs. Ela caíra em poder do inimigo pela primeira vez no outono de 1942. Na primavera de 1942 fora recapturada, para ser logo perdida por Timoshenko. Em março de 1943, Golikov a retomara, tornando a perdê-la semanas depois, na contra-ofensiva de Manstein. Desta vez, contudo, Kharkov foi libertada de uma vez por todas.

Entretanto, por mais importante que Kharkov fosse para Stalin e Hitler, sua perda, para Manstein: foi apenas incidental. Seus piores presságios se haviam corporificado. Decisões que poderiam ser tomadas calmamente o seriam, daí em diante, sob a pressão dos acontecimentos. A primeira delas foi anotada no “Diário de Guerra” do Alto Comando a 14 de agosto. “Por sugestão do Chefe do Estado-Maior-Geral do Exército [Zeitzler], o Führer pensa na evacuação da cabeça-de-ponte do Kuban para o futuro próximo. Esta providência, condicionada pelos violentos ataques inimigos na Frente Oriental e pela falta de reservas, já fora contemplada no plano de construção do Baluarte Oriental [a linha de defesas ao longo do Dnieper], e fora adiada até agora para evitar repercussões políticas entre os estados aliados e neutros no Mar Negro…”.

Hitler ficou furioso com Manstein, por causa da evacuação de Kharkov, mas não conseguiu fazer nada, porque não podia passar sem o gênio de Manstein e, portanto, não o demitiria. Um grupo de exércitos soviético atrás do outro estavam atacando, retendo as forças alemãs que os confrontavam e privando-as por completo da liberdade de manobra. Para neutralizar o perigo de penetração dos soviéticos na área de Kharkov, Manstein precisara tirar forças do seu flanco sul. Tão logo o fez, Tolbukhin atacou a outra margem do Mius e conseguiu penetrar a frente do 6º Exército (General Hollidt). Fazia apenas três semanas que o Corpo Panzer SS e o XIX Corpo de Exército (3ª e 23ª Divisões Panzer e 16ª Divisão Panzergrenadier) haviam estabelecido a frente naquele local. Mas, agora, o Corpo Panzer SS e a 3ª Divisão Panzer estavam no norte, para onde o ataque da Frente Voronezh os havia atraído. A única solução seria a retirada geral da frente do Mius para uma linha mais curta, de modo a permitir aos alemães pelo menos a defesa da bacia do Donets. Manstein sugeriu isso a Hitler, que havia retornado à Prússia Oriental, ao Q-G que ocupava, solicitando “liberdade de movimento”. O Führer respondeu-lhe, pelo telefone: “Não faça nada. Irei imediatamente até aí”.

A reunião dos dois realizou-se no antigo Q-G de Hitler, em Vinnitsa, na Ucrânia, desocupado desde outubro de 1942, quando o Führer ali esteve pela última vez. Manstein apresentou-lhe os números que demonstravam o estado de impotência das forças do Grupo de Exércitos Sul, que havia perdido 133.000 homens entre julho e agosto, recebendo apenas 33.000 em substituição. Hitler acabou concordando em transferir forças do Grupo de Exércitos Centro, mas, no dia seguinte, as ofensivas dirigidas contra o Grupo de Exércitos Centro foram intensificadas, o que levou Kluge a recusar-se a abrir mão do que quer que fosse. O Grupo de Exércitos Norte também se negou a ceder divisões e Manstein acabou não recebendo nada. Para piorar as coisas, na noite de 27/28 de agosto dois corpos soviéticos penetraram as fracas defesas do 6º Exército e tomaram o rumo de Mariupol, no sul. A 29 de agosto eles chegaram à costa, em Taganrog, isolando por completo o XIX Corpo de Exércitos, que conseguiu escapar, mas à custa de grandes baixas.

A situação das forças alemãs no leste era, a esta altura, tão séria, que Manstein telefonou a Kluge, solicitando-lhe que o acompanhasse até a Prússia Oriental, para convencer Hitler da necessidade de mandar mais forças. A 3 de setembro eles se reuniram com Hitler no “Covil do Lobo”. Não tiveram muito êxito. Kluge recebeu permissão para deslocar a ala sul do Grupo de Exércitos Centro para a outra margem do Desna, enquanto que Manstein era autorizado a evacuar a cabeça-de-ponte em Kuban e retirar o 6º Exército do Mius. Mas não haveria forças extras. Naquela noite, as forças anglo-americanas desembarcaram na Itália. Três dias depois, Malinovsky despachou seu 3º Exército de Guardas para a confluência do 1º Exército Panzer com o 6º Exército, de ambos os lados de Konstantinovka. Uma brecha de 50 km foi aberta na frente e as forças móveis soviéticas por ela penetraram, na direção de Pavlograd. Ao mesmo tempo, a Frente central varou a frente do 2º Exército, na junção do Grupo de Exércitos Centro com Grupo de Exércitos Sul. O caminho para o Dnieper estava aberto.

Fonte: História da 2ª Guerra Mundial (Edgar McInnis); Kursk – morte da Operação Cidadela (Geoffrey Jukes)

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